O Papa citou Gandalf. É sério!

Montagem mostrando um poster com diversos personagens do mundo de O Senhor dos Anéis com o Papa Leão XV erguendo um instrumento de luz ao centro em destaque. Na parte inferior, a marca d'água do site www.farofeiros.com.br

O Papa citou Gandalf bicho!

Se alguém te dissesse que o Papa iria invocar um mago da Terra Média em documento pontifício sobre inteligência artificial, você provavelmente ficaria confuso. Mas relaxa que ninguém iria te julgar.

Na última segunda-feira (25), o Papa Leão XIV apresentou uma encíclica sobre os riscos da inteligência artificial. Foi mais um alerta aos líderes políticos e empresariais para que protejam a humanidade dos efeitos mais “disruptivos” da tecnologia. O documento se chama Magnifica Humanitas e todo líder que se preze deveria ler e aprender com a visão do pontífice.

Ao argumentar sobre a força da tecnologia sobre o trabalho e o risco dele ser desumanizado, Leão XIV cita um dos discursos mais famosos de Gandalf, da obra O Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien. O trecho diz:

Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível para ajudar os anos em que estamos inseridos, erradicando o mal nos campos que conhecemos para que quem viver depois possa ter terra limpa para amanhar.

Minha gente. Gandalf. No Vaticano. Em 2026.

Tolkien não é um nome aleatório nessa história com o Papa. Ele foi um escritor, filólogo e professor universitário, considerado um dos maiores autores da literatura fantástica do século XX. O Senhor dos Anéis, publicada entre 1954 e 1955, tornou-se sua obra mais conhecida e um marco da fantasia moderna adaptado para o cinema por Peter Jackson. O Papa não citou uma passagem genérica de um autor qualquer.

Tolkien e sua obra andam sendo disputados há anos como aponta o site Valinor. Figuras da extrema direita mundial como JD Vance e Peter Thiel têm distorcido o sentido das obras de Tolkien para justificar ideologias autoritárias e capitalistas. A análise de como a extrema direita abusa de Tolkien está completa no Valinor, em tradução de um excelente texto de Alex Skopic para a revista Current Affairs.

Aqui no FAROFEIROS, por exemplo, até ameaçados de morte fomos por apontar que elfo negro existe.

Cena da série Anéis do Poder onde um elfo negro surge no meio da escuridão segurando uma tocha. Na parte inferior, a marca d'água do site www.farofeiros.com.br

Eles mesclam elementos da Terra Média com práticas de vigilância e acumulação de poder. Thiel batizou sua empresa de vigilância de Palantir, aquela esfera de cristal que corrompe quem a usa – a empresa está relacionada até na vigilância e definição de alvos em Gaza. Já o vice-presidente dos EUA criou um fundo de capital de risco chamado Narya Capital, em referência ao Anel de Fogo dos elfos… E foi patrocinado por Thiel.

Tolkien, provavelmente, estaria horrorizado com os dois figurões.

Como o texto no Valinor comenta a mensagem central da mitologia de Tolkien é exatamente o oposto da agenda dessas figuras: o poder corrompe, a ganância destrói e quem busca o anel acaba sendo consumido por ele. Essa mitologia toda alerta contra o tipo de política obcecada pelo poder que esses grupos promovem.

Se até o papa está usando Tolkien para debater ética na era da IA, talvez seja hora de a gente reler O Senhor dos Anéis com a consciência de que nem todo mundo que ama a Terra-média está do lado certo da história.

Pois é, e eu nem curto O Senhor dos Anéis.

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