Como quadrinhos deveriam ser de verdade?
Estou com raiva de histórias em quadrinhos de bonecos nos últimos anos… Não por conta de uma editora ou personagem, mas como mídia.
Mesmo que só recentemente tenha percebido os males da nostalgia já era claro para mim que a mídia esta se tornando algo elitizado. Minha coleção cresceu quando era adolescente nos anos 1990, naquela época eu conseguia pegar algum trocado, mesmo que fosse o dinheiro do lanche da escola, e com menos de R$ 5,00 conseguia comprar uma história em quadrinhos dos meus personagens favoritos.
Obviamente estou falando do famigerado e odiado formatinho de personagens enlatados da Marvel e da DC. Estes mesmos quadrinhos hoje recebem capa dura, impressão de alta qualidade e são vendidos a valores absurdos por pequenas e grandes editoras. Aquilo que comprei quando jovem era acessível, o mesmo gibi não é mais de fácil acesso para todos.
Sim, eu sei que o problema não é exatamente o ramo editorial, mas convenhamos, tornar os quadrinhos de Alan Moore algo inacessível para a classe trabalhadora é, no mínimo, um absurdo. Gibi e nem nenhum tipo de cultura deveria ser coisa de rico!

Nesse vácuo surgem belas produções nacionais que pude adquirir, não que fossem baratos exatamente, mas são originais – feitos pela minha gente e impresso aqui. Só por isso o valor de um gibi já aumenta.
Hoje possuo algumas coletâneas da Laerte, Malvados, o ótimo Angola Janga, entre outros, mas é pouco.
Minha coleção de quadrinhos brasileiros poderia – talvez deveria – ser maior, mas fui intelectualmente colonizado muito cedo e alguns hábitos são realmente difíceis de se mudar. Ainda hoje tenho memórias emocionais com personagens da Marvel e alguns da DC que dificilmente deixarei de sentir… Mas isso não apaga a qualidade mínima de alguns roteiros. A maioria dos quadrinhos mensais gringos eu nem consigo ler direito por sem sempre a mesma coisa, sempre o mesmo resultado.
A última vez que me animei com quadrinhos gringos mesmo foi com a saga de Krakoa, dos X-Men, e, mais recentemente, o segundo volume de DIE e Power Fantasy.
E aí surge nos EUA um novo crossover entre as duas editoras, mostrando heróis lado a lado – alguns agindo de maneira bastante fraterna – sem aquela palhaçada de bater primeiro e perguntar depois. E o resultado é um gibi com uma empatia extrema e que mostra um cuidado absurdo na sua confecção. Nunca imaginei que ficaria tão feliz de ler um gibi do Homem Aranha e do Superman onde os dois se ajudam e até vão jantar juntos com suas famílias. É um quadrinho extremamente otimista e cheio de empatia… Sem a troca de tapas inicial sem sentido entre os “bonzinhos”.

E por que essa história deveria ser elitizada, sendo que é feita para vender mais e, por isso mesmo, ser acessível para todo mundo?
E consterna o princípio que aponta que arte é apenas para pessoas com conhecimento ou dinheiro para aprecia-las. A arte existe para todos e não há problemas em ser mais teórica ou filosófica que outras. Mas ela precisa ser, invariavelmente, importante para o público, para o observador.
Afinal, se a arte é apenas para alguns, ela não é para ninguém.
Vale ainda mencionar que a origem artística da maioria dos criadores está bem longe de academias e escolas de arte renomadas. A arte, é questionadora, envolve o espectador em sentimentos e sensações. Como sentimentos podem ser elitizados? Como alguém pode classificar o que um sente ou entende na arte?!
A resposta é simples: ninguém pode classificar o que outra pessoa sente. Mas podemos ter um sentimento ainda mais importante e, na maioria dos casos, nobre: empatia, assim como os bonecos do gibi. Saber que uma obra é mais acessível seja pela sua linguagem, seja pelo seu custo deve ser comemorado por todos que apreciam arte. Afinal, quanto mais pessoas gostarem dela, mais dela será produzida.
Uma aventura, uma comédia, um drama, não importa, toda história em quadrinho deveria ser simplesmente acessível. O artista deve ser recompensado pela sua obra e o leitor ou espectador ter o acesso à ela facilitado. No lugar de comprar um gibi de R$ 200, talvez seja melhor a gente favorecer aquele fanzine de R$ 5. A arte agradece.



Deixe um comentário