Como a indústria expulsou a classe trabalhadora das bancas.
Havia um tempo em que comprar quadrinhos era tão comum quanto comprar bala, literalmente com trocados você tinha acesso à um gibi. Hoje, folhear um único número da Marvel ou da DC pode custar o mais do que uma refeição em um restaurante. Aparentemente gibi é coisa de rico agora.
Resolvi escrever esse texto depois ler uma entrevista de, Alan Moore – ex-criador de Watchmen, V de Vingança e criador de Jerusalém – ao site RetroFuturista. Lá ele disse algumas coisas bem óbvias, mas que recentemente (pelo menos) não vi ninguém falando e precisam ser repetidas e espalhadas.
A origem dos quadrinhos modernos sempre foi a chamada “anti-cultura”, aquela que sempre foi ignorada pelas elites e frequentemente tratado como algo sem qualidade, “lixo barato para crianças e trabalhadores”. O formato humilde havia enxergava potencial revolucionário: ideias poderosas transmitidas de forma rápida e acessível para quem mais precisava delas.
Muito do meu incentivo à leitura veio dos quadrinhos de super-herói. Ainda criança ia na banca comprar gibis com histórias que não entendia, mas me fascinavam – algumas ainda me fascinam. Mas tudo hoje é caro.
O potencial revolucionário foi cooptado pelo capital que enterrou a possibilidade de inovações acessíveis.
Segundo levantamento do The A.V. Club com dados de 2024, mais da metade dos quadrinhos estadunidenses lançados naquele ano custava US$ 4,99 ou mais por edição, sem mencionar capas variantes chegando a valores ainda maiores. Todd McFarlane, criador do Spawn e co-fundador da Image Comics, lembrou que com 20 ou 25 dólares, você saia de uma loja com uma sacola cheia de revistas. Hoje, você conta nos dedos o que consegue comprar com esse valor.

E não podemos deixar de apontar o dedo para o colecionismo que inflaciona itens e torna edições que deveriam ser comuns em peças de colecionador – inacessíveis para a maioria das pessoas.
No Brasil, o cenário não é diferente. Enquanto a Panini publica volumes encadernados com capa cartonada e lombada sem padrão de diagramação por preços que facilmente ultrapassam R$ 60 ou R$ 80. O salário mínimo nacional segue sendo um limite real para milhões de leitores em potencial… Não por falta de interesse, mas por falta de dinheiro mesmo.
Em 2017 fiz algumas contas para saber quanto custava um gibi no Brasil, mesmo sem informações internas, calculando o valor por página de alguns gibis e já achava tudo muito mais caro do que deveria.
Sempre fui crítico do infame “formatinho” dos quadrinhos dos anos 1980 e 1990 (com hiperinflação que poderia chegar à 1900%), mas é inegável que eles eram extremamente mais acessíveis do que os de hoje. Mas o detalhe é que o poder de compra nessas épocas era inferior do que ao que temos hoje no capitalismo tardio mesmo com melhoras obtidas nos governos Lula e Dilma (nunca esquecer o golpe de 2016 e o que o condenado Jair Bolsonaro fez).
Alan Moore aponta que a indústria se tornou um campo que produz conteúdo majoritariamente “por, para e sobre pessoas de classe média“. E as grande editoras do mundo todo sabem disso.
A DC lançou em 2024 sua linha Compact, gibis menores e mais baratos, e viu as vendas subirem. Na Bienal do Livro de Fortaleza em 2025, edições da DC de Bolso foram vendidas a R$ 15,00 e formaram filas todos os dias, segundo o HQRock. Porém, em lojas online o mais barato hoje é vendido por R$ 25,55.
A demanda sempre existiu, o que sempre falta é vontade política e econômica de atender esse público.
Não por acaso Moore resolveu abandonar o campo que ajudou a transformar com suas ideias, os quadrinhos sentem falta do autor, mas é difícil recriminar tal atitude com o mercado agindo do jeito que age.
Arte que nasce popular e se torna exclusiva não é só um problema de mercado, é um problema do sistema. Cultura acessível para todos não deveria ser algo tão revolucionário assim.





Deixe um comentário