Nostalgia é uma doença que nos acomete, mas tem cura.
Boa parte cultura pop atual é basicamente um museu com ingresso caro. Reboots, remakes, retcons e infinitos revivals de franquias que deveriam ter sumido nos anos 90. Isso tem nome, e chamar de homenagem cobre apenas um aspecto de uma situação que, segundo Alan Moore, torna nostalgia literalmente uma enfermidade.
Em entrevista recente ao RetroFuturista (sim, essa entrevista é ótima e está rendendo na minha cabeça), o ex-criador de Watchmen, V de Vingança e Jerusalém, tem uma opinião extremamente impopular e demasiadamente interessante: a nostalgia sempre foi, desde que a palavra foi cunhada, uma doença. O termo vem do grego e significa “saudade de casa”, mas se tornou combustível para qualquer um que prefira se refugiar num passado imaginado a encarar o presente.
Não por acaso esses “nichos” são abrigos de membros da extrema-direita contemporânea, com aceleracionismos em distopias tecnológicas junto de religião. Possuem inclusive patrocinadores.
Como o RetroFuturista bem aponta, Moore sugere no conto Illuminations, que o fascismo sempre foi a nostalgia armada.

Na cultura pop, o mecanismo é o mesmo, só que com menos botas e mais merchandising. A Marvel trabalhando de maneira industrial em quadrinhos, filmes, séries e bonecos, as trilogias de trilogias, os relançamentos de jogos remasterizados de um game de um console que você jogou quando criança. Tudo isso é embalado na promessa de que aquela sua versão, “aquele você”, pode voltar.
Você não pode.
E se pudesse, não deveria.
Alan Moore abandonou sua obra clássica nos quadrinhos justamente por recusar-se a ser consumido pela máquina da nostalgia. Enquanto o mercado vivia relançando Watchmen em prequels e adaptações, ele seguia em frente com The Great When, em uma ficção que não recicla suas obras anteriores.
A psicologia contemporânea também já catalogou os efeitos do excesso de nostalgia: segundo estudos como os de Constantine Sedikides, publicados na Current Directions in Psychological Science, ela pode ser reconfortante em doses pequenas, mas em excesso bloqueia crescimento e até a criatividade.
A questão toda da nostalgia ser uma doença não é odiar o passado, de maneira alguma. A questão é que muita gente precisa parar de morar nele.





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