Nostalgia é uma doença

Montagem fotográfica com duas imagens do escritor Alan Moore sobrepostas, sobre fundo escuro arroxeado com partículas de luz. Na imagem de trás, Alan Moore aparece mais jovem, com cabelo castanho longo e ondulado. Na frente, uma versão mais velha, com barba branca volumosa e olhar intenso. Na parte inferior, a marca d'água do site www.farofeiros.com.br

Nostalgia é uma doença que nos acomete, mas tem cura.

Boa parte cultura pop atual é basicamente um museu com ingresso caro. Reboots, remakes, retcons e infinitos revivals de franquias que deveriam ter sumido nos anos 90. Isso tem nome, e chamar de homenagem cobre apenas um aspecto de uma situação que, segundo Alan Moore, torna nostalgia literalmente uma enfermidade.

Em entrevista recente ao RetroFuturista (sim, essa entrevista é ótima e está rendendo na minha cabeça), o ex-criador de Watchmen, V de Vingança e Jerusalém, tem uma opinião extremamente impopular e demasiadamente interessante: a nostalgia sempre foi, desde que a palavra foi cunhada, uma doença. O termo vem do grego e significa “saudade de casa”, mas se tornou combustível para qualquer um que prefira se refugiar num passado imaginado a encarar o presente.

Não por acaso esses “nichos” são abrigos de membros da extrema-direita contemporânea, com aceleracionismos em distopias tecnológicas junto de religião. Possuem inclusive patrocinadores.

Como o RetroFuturista bem aponta, Moore sugere no conto Illuminations, que o fascismo sempre foi a nostalgia armada.

Montagem fotográfica com duas imagens do escritor Alan Moore sobrepostas, sobre fundo escuro avermelhado com partículas de luz. Em ambas, Alan Moore aparece com seu característico cabelo longo grisalho e barba volumosa branca, com expressão séria. Na parte inferior, a marca d'água do site www.farofeiros.com.br

Na cultura pop, o mecanismo é o mesmo, só que com menos botas e mais merchandising. A Marvel trabalhando de maneira industrial em quadrinhos, filmes, séries e bonecos, as trilogias de trilogias, os relançamentos de jogos remasterizados de um game de um console que você jogou quando criança. Tudo isso é embalado na promessa de que aquela sua versão, “aquele você”, pode voltar.

Você não pode.

E se pudesse, não deveria.

Alan Moore abandonou sua obra clássica nos quadrinhos justamente por recusar-se a ser consumido pela máquina da nostalgia. Enquanto o mercado vivia relançando Watchmen em prequels e adaptações, ele seguia em frente com The Great When, em uma ficção que não recicla suas obras anteriores.

A psicologia contemporânea também já catalogou os efeitos do excesso de nostalgia: segundo estudos como os de Constantine Sedikides, publicados na Current Directions in Psychological Science, ela pode ser reconfortante em doses pequenas, mas em excesso bloqueia crescimento e até a criatividade.

A questão toda da nostalgia ser uma doença não é odiar o passado, de maneira alguma. A questão é que muita gente precisa parar de morar nele.

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