Miracleman nos Vingadores parece uma teoria maluca, mas tem fundamento.
Se tem algo que realmente gosto é quando vejo uma teoria doida em gibis de super-herói que, por algum motivo bobo, pode não ser apenas uma coincidência. Talvez isso não seja saudável, mas faz parte da minha diversão, só que dessa vez a Marvel Comics pode ter levado essa bagunça longe demais… Tão longe que podemos até ver o personagem Miracleman nos Vingadores.
E não, não é piada… Mas temos muito o que falar (como sempre).
Quem é Miracleman?

Miracleman, ou Marvelman, criado por Mick Anglo em 1954, era considerado apenas um substituto britânico do Capitão Marvel que foi publicado até 1963 no Reino Unido. Até então a publicação não tinha relação alguma com as grandes editoras dos EUA, a DC ou Marvel. Em 1982 o personagem ganhou relevância ao ressurgir de maneira dramática e sombria, totalmente diferente de sua origem, nos argumentos de ninguém menos que Alan Moore. Suas histórias são sombrias, cheias de possibilidades de interpretações e, obviamente, não era mais uma versão alternativa de Superman, Capitão Marvel (Shazam?) ou qualquer homem branco instrutivo que podia voar.
Na década de 1980 Moore já mostrava um argumento que mostrava o personagem como resultado de uma experiência realizada como parte de um projeto de pesquisa militar! A profundidade e a complexidade dessas tramas podem ser admiradas ainda hoje, fugindo muito de argumentos extremamente comerciais comuns nos quadrinhos de super-herói estadunidense. Essa fase, diferente do resto dos gibis da época, foi publicada em preto e branco dando um tom ainda mais dramático à história do autor que viria a criar Watchmen em 1986 revitalizando personagens da Charlton Comics.
Diversos outros autores contribuíram da sua maneira com a mitologia de Miracleman, mas isso não foi suficiente para conter todos os processos pela propriedade do personagem.

São diversas brigas legais pelos direitos de publicação do personagem devido à acordos mal feitos, processos por conta do nome “Marvelman”, falências de editoras que os publicavam e até licenciamento para editoras estadunidenses (que também faliram). No Reino Unido a publicação original de Captain Marvel #24 recebeu o titulo “Captain Marvel – The Marvelman” só para complicar tudo ainda mais. Em 1996 Todd McFarlane comprou direitos de publicação das propriedades da falida editora Eclipse e acreditava que o negócio incluiria o personagem. Tal atitude levou o artista a enfrentar processos com outros autores pelos direitos de Miracleman que só se resolveriam anos depois.
No Brasil a RGE publicava as histórias do personagem Capitão Marvel (Shazam) e também do Marvelman – que foi batizado de Jack Marvel por aqui – apenas para se ter ideia do tamanho da bagunça, como lembra Jotapê Martins.
A situação legal do personagem e de todo o material criado só foi solucionada em 2009, quando Mick Anglo – com seus direitos sob o personagem reinstaurados – finalmente licenciou sua criação para a Marvel Comics. Mesmo assim as republicações só ocorreram a partir de 2014. Desde então vemos diversos rumores, alguns autores com boas intenções e algumas boas ideias jogadas no ar, mas nada foi oficialmente confirmado pela editora. Miracleman vive hoje apenas em seu passado glorioso e edições de luxo da Marvel Comics, sem nenhuma novidade.
Bem, pelo menos até agora.
Um novo super-homem na Marvel Comics

A Marvel Comics tem diversos “super-homens” em seu elenco: Sentinela, Gladiador, Hyperion e, a mais nova versão do estereótipo de homem branco que voa e é super forte: David Colton. E fica o aviso, a seguir detalhes de Wolverine: Weapons of Armageddon, Ultimate Endgame e Ultimate Impact: Reborn, publicados entre Abril e Maio de 2026 nos EUA e ainda inédito no Brasil, serão abordados. A saga Armageddon também será abordada, porém, ela ainda não foi concluída até a publicação deste artigo.
Honestamente, não poderia me importar menos com esse personagem pouco inspirado e de história bizarra – no sentido ruim da palavra. Inicialmente Colton seria uma versão atualizada do Capitão América, mas o soro de super soldado que o exército estadunidense utilizou causou graves problemas cardíacos… Tão graves que só pôde ser salvo pela bondade (?) de Tony Stark que colocou um gerador arc (igual ao que utiliza) no peito de Colton. Mas calma, a situação ainda piora.

As Caixas de Origem, artefatos tecnológicos de poder assustador desenvolvidos por Tony Stark/Garoto de Ferro do Universo Ultimate atual, que vieram para a linha do tempo oficial da Marvel Comics, o Universo 616… No Universo Ultimate foram esses dispositivos que deram os poderes às contrapartes dos super heróis que conhecemos: naquele universo o Criador impediu que uma aranha picasse Peter Parker e lhe conferisse poderes, Tony Stark deu um jeito nisso. Apesar de não entender tal artefato o exercito estadunidense se apodera de uma das Caixas de Origem e Wolverine se prontifica de alerta-los dos perigos dela – mas no final precisa utilizar suas garras e a ajuda de aliados esquisitos. Um deles é David Colton.
Durante a briga o Capitão América de Ferro Colton é ferido de maneira quase fatal e Logan não pensa duas vezes, para salvar seu aliado ele abre a Caixa de Origem e seu conteúdo dá à David Colton força superior a da Capitã Marvel, poder de voo além de se tornar praticamente invulnerável – como Miracleman. Nasce assim um “super-homem” de roupa verde, com capa esvoaçante e uma estrela brilhante em seu peito.
Quem é realmente David Colton?

A teoria apresentada pelo Bleeding Cool é assustadora, mas interessante ao ponto de transformar o chato do Colton em um personagem quase interessante.
O site aponta algumas pistas, a primeira delas seria a renovação do logotipo do gibi dos Vingadores que é creditado ao autor Chip Zdarsky – que é o roteirista do arco que trará uma equipe com Homem Aranha, Wolverine, Capitã Marvel, Demolidor e Luke Cage em Novembro de 2026. O novo design já é exibido nas capas divulgadas de Avengers: Earth’s Mightiest Survivors #1.

A teoria indaga a notável semelhança do novo logotipo do gibi dos Vingadores com o do layout exibido na capa de uma das edições de encadernados lançados pela Marvel Comics, especificamente o Miracleman Omnibus DM Classic, com arte de Garry Leach. Enquanto podemos ver as semelhanças entre os dois layouts de maneira clara, temos que “torcer” o novo “A” até que seja possível vislumbrar algo que pode lembrar uma letra “M”.

E sim, entendo que esta “pista” pode ser pouco crível, mas estão não é a principal referência que pode ligar os Vingadores à introdução de Miracleman em seu universo. Em Avengers Armageddon #3 (2026), de Chip Zdarsky, Delio Diaz e Frank Alpizar, podemos ver uma página onde David Colton leva Wolverine até o espaço e lá simplesmente solta o mutante canadense. Em Miracleman #7 (1986), de Alan Moore e Chuck Austen, podemos ver uma página extremamente parecida – com contextos bem diferentes, mas é fácil notar a semelhança. Conceitualmente os dois estão arremessando seus criadores da estratosfera… Não?


Não seria surpreendente se a destruição que vemos ao fundo na capa de Avengers: Earth’s Mightiest Survivors #1 seja resultado das ações de David Colton, um milagroso ser da Marvel. Seria? Neste momento podemos apenas especular, mas Miracleman, ou mesmo Marvelman, se encaixa nessa historia… Mesmo que seja de um jeito bem questionável.
Trama maluca para fãs das antigas: puro marketing

Entendo os perigos da nostalgia utilizada de maneira quase perversa no contexto atual do mercado editorial mundial. Mas também sei que a Marvel Comics não conseguirá traduzir nos quadrinhos dos Vingadores o que Alan Moore fez com Miracleman mais de 40 anos atrás. Seu público não quer aquilo, então – posso afirmar sem medo – entendo que se essa teoria for real será apenas mais uma ação de marketing que entregará um subproduto de uma obra antiga para um público que não irá realmente se importar com sua trama. Seja o desenvolvimento de armas, seja a manipulação de forças militares no poder global, Kimota! não terá significado algum para quem não se importa – ou não entende – o que ocorreu no Brasil e no mundo naquela época.
Também cometo algo questionável neste artigo quando frequentemente dou os devidos créditos para Alan Moore. O autor exigiu que seu nome não fosse relacionado às suas histórias ou ao personagem após o licenciamento feito pela Marvel Comics. Em algumas publicações é creditado apenas como “o autor original”, em outros casos não há menção alguma ao seu trabalho. Meu posicionamento mudou no decorrer do anos e, ideologicamente, concordo o Moore, mas como fã fico triste por ver um autor não ter o devido reconhecimento que merecia – mesmo que seja seu desejo.
No final, tudo o que posso afirmar mesmo é que se a DC Comics fez algo muito parecido com outra criação de Moore – que também não recebe os créditos. Doutor Manhattan é hoje uma figura cósmica de extrema importância e poder, como bem lembrou nosso amigo Chewbacca Jr. A Marvel Comics pode estar fazendo o mesmo.
