Super-herói é coisa de criança?

Diversas representações do Homem Aranha e seus amigos como nos quadrinhos na animação e no filme com Tom Holland. Na faixa inferior o endereço farofeiros.com.br.

Ontem eu estava no sofá com meu filho vendo Spidey e Seus Amigos Espetaculares (Spidey and His Amazing Friends). Ele também é fã de Homem de Ferro e Seus Amigos Incríveis (Iron Man and His Awesome Friends), a versão criança do Homem de Ferro. E, em algum momento entre o Rino tentando roubar alguma coisa e o Homem-Aranha resolvendo tudo com uma lição sobre dividir os brinquedos, eu percebi uma coisa estranha: eu não estava odiando aquilo.

Isso deveria ter sido um alarme. Eu tenho 44 anos, li praticamente tudo que Marvel e DC publicaram entre os anos 1990 e 2000, aquela fase em que todo herói precisava ficar sombrio, cruel, “adulto” — o Superman morrendo, o Batman virando paraplégico e sendo substituído por um sucessor mais violento, o Lanterna Verde virando genocida, o Peter Parker descobrindo que era um clone. Fui criado para desconfiar de qualquer coisa colorida e simples. Fui criado para achar que “maduro” era sinônimo de bom.

Então por que um desenho pré-escolar, cheio de robôzinhos fofos e vilões que nunca fazem mal de verdade a ninguém, não estava me incomodando?

Recorte de quadrinhos mostrando uma luta entre Venom e Homem Aranha com arte de Todd Mcfarlane. Na faixa inferior o endereço farofeiros.com.br.

A Farsa da Maturidade

Passei a vida adulta assistindo filmes de herói que fingem ser complexos. Tramas que se vestem de dilema moral, personagens que “sofrem consequências”, vilões com “motivações compreensíveis” — tudo isso empacotado com a estética de seriedade, mas sem coragem nenhuma de sê-la de verdade. Ninguém morre por muito tempo. Nenhuma escolha é definitiva. O sofrimento dura até o próximo trimestre de lançamentos.

O que me incomodava nesses filmes não era serem bobos. Era fingirem que não são.

Spidey e Seus Amigos Espetaculares (Spidey and His Amazing Friends) não finge nada. Ele não promete profundidade e depois entrega raso. Ele promete uma criança aprendendo a dividir, um vilão sendo detido sem violência, uma lição de trabalho em equipe repetida à exaustão — e é exatamente isso que entrega. É honesto na proporção do que é. E, por incrível que pareça, isso o torna menos pretensioso que qualquer filme de três horas do MCU tentando me convencer de que um confronto entre bonecos de CGI é uma tragédia grega.

Ilustração de Aranhaverso onde Miles e Gwen observam Homem Aranha 2099 e muitos outros surgirem de um portal laranja. Na faixa inferior o endereço farofeiros.com.br.

Heróis São, Antes de Tudo, Coisa de Criança

Talvez a verdade incômoda seja essa: super-herói é, na origem, um gênero infantil. Foi inventado por e para garotos de doze anos há mais de oitenta anos. Superman é uma fantasia de poder para quem se sente pequeno. Homem-Aranha é uma fantasia de responsabilidade para quem ainda não teve nenhuma. Isso não é defeito do gênero — é a função dele.

O erro não foi os quadrinhos terem nascido infantis. O erro foi, décadas depois, decidirmos que eles precisavam “crescer” — e confundirmos crescimento com brutalidade. Trocamos histórias simples por histórias sombrias, achando que uma coisa levava à outra. Não levava. Só ficamos com histórias infantis fingindo ser maduras, o pior dos dois mundos.

O desenho que assisto com meu filho não tem essa vergonha de ser o que é. E, justamente por isso, ele cumpre com mais dignidade a função que o gênero sempre teve: ensinar, numa linguagem simples, que dividir é bom, que covardia se supera, que ajudar o outro importa mais que vencer sozinho. São lições de criança, ditas para uma criança, sem o desconforto de fingir ser outra coisa.

Imagem de divulgação de Homem Aranha e seus amigos incríveis com Spin - Aranha Fantasma e Homem Aranha. Na faixa inferior o endereço farofeiros.com.br.

O Que Sobra Pra Mim

Assistindo com meu filho, entendi que o problema nunca foi eu ter gostado de histórias sombrias na adolescência — era a idade certa para aquilo, e ainda gosto de boa parte delas. O problema foi ter passado a exigir esse tom de tudo que carregasse um símbolo na roupa, inclusive de coisas feitas para outra pessoa, numa outra idade, com outra necessidade.

Meu filho não carrega os oitenta anos de continuidade que eu carrego. Ele não sabe, nem precisa saber, quem é o Homem de Ferro “de verdade” antes de ganhar essa versão de brinquedo educativo. Para ele, aquilo já é o herói — inteiro, suficiente, sem nostalgia nenhuma para proteger.

E talvez seja esse o presente que esses desenhos me deram, sem eu pedir: a chance de ver o gênero, pela primeira vez em décadas, sendo exatamente o que sempre deveria ter sido. Sem se desculpar por isso. Sem fingir ser outra coisa. Só uma criança e um herói de capa, aprendendo juntos a fazer a coisa certa.

Meu filho está crescendo me lembrando disso. Eu só estou sentado ao lado dele, me divertindo sem pretensão de ser adulto.

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