A Teoria Política Escondida em Pokopia

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A Teoria Política Escondida em Pokopia

Pokémon Pokopia virou Murray Bookchin e mostrou a ecologia social de uma maneira que ninguém esperava.

A Game Freak e a Omega Force lançaram recentemente um novo jogo de Pokémon chamado Pokopia exclusivo para Nintendo Switch 2, mas ele é bem diferente do que estamos acostumados. Você não precisa colocar os monstrinhos de bolso para uma rinha nem precisa aprisioná-los para colecioná-los, aliás, você é um deles.

Enquanto aponto que há uma teoria política escondida em Pokopia estou sendo simplista, a teoria se apresenta em todo o enredo do jogo. O mais interessante é que enquanto algumas pessoas até afirmam que o game segue o movimento artístico solarpunk quase ninguém se lembra da ecologia social.

Vemos o mundo pop sempre usando referências, mas explorando pouco teorias e muitas vezes nem se referenciando pelo nome. Aqui iremos mergulhar uma pouco mais profundo das entrelinhas da história.

Durante o FAROFANDO recebemos Pêdra Espindola para comentar sobre o assunto, além de contribuir com este texto também.

Conforme você avança no jogo encontra diários, jornais e logs que contam que a humanidade teve que evacuar para o espaço por causa de “fenômenos inexplicáveis” que tornaram o mundo inabitável. Por algum motivo não conseguiram levar todos os Pokémon, então os “armazenaram” num sistema computadorizado gigante até que o planeta se recuperasse. Só que esse datacenter começa a liberar alguns monstrinhos… E aí é que a sua jornada começa.

O enredo não é uma história triste sobre mudança climática, é praticamente um manifesto de Ecologia Social saído direto dos textos de Murray Bookchin – teórico que passou décadas apontando que a crise ecológica e dominação social são inseparáveis.

Murray desenvolveu a teoria da Ecologia Social nos anos 1960, defendendo algo radical para a época: problemas ecológicos surgem de problemas sociais profundos. Para Bookchin, a dominação humana sobre a natureza é consequência da dominação social entre humanos: hierarquia gera hierarquia, exploração gera exploração, estamos falando do capitalismo aqui.

Sim, mais uma vez a culpa é toda do capitalismo.

Em Pokopia o continente Kanto não foi destruído por meteoros ou alienígenas, mas sim por uma crise climática que a humanidade causou. O colapso ocorre através de sistemas que priorizaram crescimento econômico sobre a sustentabilidade.

A evacuação permitiu que algumas pessoas levassem seus Pokémons, como apontado pelo The Phrasemaker, fica claro que existem hierarquias até no momento do desastre, alguns podem ir para o espaço e ficar com seus treinadores, outros não. Não é claro quem decide quais criaturas merecem salvação, mas há uma casta beneficiada e outra que não é.

Se nós não fizermos o impossível, vamos nos deparar com o inimaginável.

Murray Bookchin
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Restauração ecológica através da mutualidade

Um “hacker misterioso” programou um sistema de liberação controlada para salvar os Pokémon “estocados” em datacenters gradualmente conforme o mundo se recuperava. Alguém de dentro do sistema percebeu o erro do planejamento hierárquico e criou uma saída. Você, ou o Ditto, fica como principal responsável pela organização dos Pokémon de acordo com suas habilidades – assim como você.

Cada Pokémon tem especialidades: alguns constroem, outros limpam, outros produzem recursos. Ninguém ordena, todos cooperam. Você precisa entender as necessidades de cada Pokémon: Hoothoot gosta de escuridão, Charmander precisa de abrigo da chuva. É preciso criar ambientes que atendam as necessidades de cada um. E isso é literalmente o conceito criado por Murray Bookchin de primeira natureza (biótica) e segunda natureza (humana) coexistindo através de autogestão.

Bookchin escreveu que humanos criam ambientes adequados ao seu modo de existência, como qualquer animal. Pokopia entende bem isso, afinal Ditto não está reconstruindo “civilização humana”, ele (você?) está proporcionando a regeneração de diversos ecossistemas onde cada criatura encontra seu lugar sem dominação externa, sem hierarquia.

A presunção de que o que existe atualmente deve necessariamente continuar existindo é o ácido que corrói todo pensamento visionário.

Murray Bookchin
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Hierarquia versus cooperação

É sempre importante lembrar que em Pokémon Pokopia você não é humano, você é um monstro imitando uma espécie supostamente extinta em um mundo que seguiu em frente. Por 30 anos a franquia Pokémon foi sobre humanos colecionando criaturas, as colocando em bolas e as comandando em rinhas. Pokopia muda tudo isso.

Aqui os Pokémon não precisam de humanos para sobreviver. Aliás, aparentemente muitos estão melhor sem os seres humanos, e isso foi notado por diversos jogadores segundo o GamesRadar.

O que Ditto oferece não é dominação, mas coordenação. Não existe o papel do Mestre Pokémon aqui, não existem ginásios, Liga Pokémon ou qualquer competição – em nenhum momento os Pokémon entram em batalha na sociedade de Pokopia. Existe trabalho coletivo para restaurar o ambiente, onde o sucesso é medido por biodiversidade e felicidade, não por vitórias em um campeonato que te tá broches.

Isso espelha a crítica de Murray Bookchin às sociedades pré-capitalistas: ele descreve comunidades organizadas em torno de necessidades mútuas. Estas foram posteriormente dominadas por hierarquias como cidade-estado e economias capitalistas que impulsionam a hierarquia.

Pokopia inverte essa trajetória mostrando o que acontece quando hierarquias colapsam e só resta mutualidade. E o resultado é um jogo que mostra que, apesar das diferenças, todos podem contribuir com a sociedade e viver bem. A vida real não é tão simples assim, mas o sistema também não permite que ela seja simplificada.

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A crítica ao capitalismo

Bookchin afirma que problemas econômicos, étnicos, culturais e de gênero estão no centro das piores deslocações ecológicas que enfrentamos.

Pokopia traduz isso para o videogame: crise climática não é “culpa da humanidade abstrata“, mas de sistemas hierárquicos que colocaram crescimento acima de tudo. E a solução não é tecnocracia – ou o tecnofeudalismo – mas reorganização horizontal.

Nos últimos anos estamos vivendo cada vez mais “fenômenos inexplicáveis”, parecidos com os que forçaram a evacuação de Kanto no game. Ondas de calor recordes, colapso de ecossistemas, refugiados climáticos, empresas privadas agindo de maneira questionável. As soluções de alguns governantes (ou suas concessionárias) parecem saídas de uma ficção científica barata com promessas de bilionários para colonizar Marte enquanto a Terra queima.

Pokopia oferece outra visão, o game mostra que podemos reorganizar sociedade em torno de cooperação ecológica, descentralização democrática e abolição de hierarquias. “Só” precisamos parar de tentar dominar outros humanos e a natureza.

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Tem humor também

Pokémon sempre foi sobre dominação disfarçada de amizade. Capturo você, te carrego em uma bolinha, te obrigo a lutar até desmaiar (ou fazer outros desmaiarem). Pokopia mantém a estética fofinha da franquia mas remove completamente a violência estrutural. E todo mundo está amando com uma nota de 89 no Metacritic no momento de fechamento deste artigo.

A menos que lidemos com o capitalismo não conseguiremos resolver a crise ecológica que ameaça a a vida na Terra. O jogo pode ser apenas algo sobre uma gosma roxa tentando salvar o mundo, mas considerando que vendeu 2,2 milhões de cópias em quatro dias, talvez as pessoas estejam prontas para imaginar futuros além de hierarquia e competição.

Será que dá para ter esperança que essa política escondida em Pokopia irá mudar o jeito como uma pessoa vê o mundo?

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