A fantasia de poder de Kieron Gillen e Caspar Wijngaard é um dos melhores gibis de super-herói dos últimos anos e, não por acaso, o projeto autoral é lançado fora do circuito Marvel/DC. DIE é um bom exemplo do barulho que Gillen pode fazer em um gênero que é facilmente menosprezável. O autor acerta o peso do argumento mais uma vez, revelando com facilidade o que as grande editoras nunca poderão fazer: explorar e dar consequências reais para seus personagens.
O mundo está saturado pelo gênero super-herói por ser extremamente genérico e utilizado à exaustão como propaganda – seja política, seja comercial. Histórias rasas e personagens infalíveis cansam, editoras visando transformar seus personagens em bonecos, séries e filmes eliminam até a mortalidade dos personagens em nome do lucro.
A história de The Power Fantasy é simples: seis pessoas no planeta têm o poder destrutivo equivalente ao arsenal nuclear dos EUA – cada um com seu dor específico. A premissa já escalona os poderes dos personagens os colando em um mundo com tensões parecidas com a da Guerra Fria, dando tapa na cara dos super-heróis manjados que a gente atura desde criança. E sim, estou olhando feio para a Marvel Comics e meus amados (ou nem tanto) X-Men.


O gibi coloca o mundo e seus governos em conflito constante e direto contra os seres superpoderosos, mas nada é tão simples assim, afinal frequentemente a humanidade fica indefesa diante de seu poder. Para entender melhor você precisa imaginar o que aconteceria se personagens com poderes divinos tivessem que lidar com real politik em vez de vilões com baldes na cabeça.
A humanidade toda os teme, tentam matá-los em diversos momentos e frequentemente estão envolvidos em situações catastróficas. Neste mundo o último desastre causado por superpoderosos ocorreu em 1989, sendo que outro está prestes a ocorrer.
Etienne Lux, um dos protagonistas superpoderosos, é um telepata parecido com Professor Xavier mas, diferente do mentor do X-Men, ele não salva o dia com discursos motivacionais. Logo na primeira edição, ele assassina telepaticamente o presidente dos Estados Unidos para evitar que outro superpoderoso jogue o Texas inteiro na órbita. Sim, este é um gibi de boneco que mostra uma situação cruel, mostrando a insignificância do resto do mundo.



Os “super-heróis” de The Power Fantasy são indivíduos capazes de aniquilar toda a civilização apenas com o pensamento. Há também questionamentos de questões existenciais, alguns tem problemas psicológicos, outros sofrem devido seu crescente poder – neste mundo não é possível ter ética quando os limites são definidos por você mesmo.
Esses super-heróis – ou anti-heróis – não são uma versão alternativa de Vingadores ou da Liga da Justiça, aqui as questões são muito mais perigosas e com consequências reais. Diferente de qualquer arco de quadrinhos da Marvel e da DC, há consequências, há morte, há dor, há manipulação e, acredite se quiser, há esperança.
Não é a toa que a HQ esgotou duas tiragens nos EUA antes mesmo da segunda impressão ser lançada em um mercado saturado cheia de capas variantes e mega eventos que não significam nada. The Power Fantasy faz o gênero de super-herói crescer encarando suas próprias contradições filosóficas e políticas. Certamente é um gibi de boneco que vai te impressionar.
Tenho me identificado cada vez mais com o trabalho independente de Kieron Gillen, é bom ver como sua visão vai além do que as editoras tradicionais. As limitações editoriais de Marvel e DC sempre visam mais vendas, deixando o lado criativo capenga e em segundo plano – muitas vezes de maneira porca.

No momento desta publicação The Power Fantasy #1 está disponível no site da Image Comics para leitura gratuita (em inglês). Não há previsão de publicação do quadrinho no Brasil.
Edu Andrigo colaborou com o texto alternativo das imagens neste texto.




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