“Olha, Pokémon não está evoluindo!”
Sou da época em que você só conseguia trocar Pokémon via Game Boy (com cabo) em encontros de fóruns especializados realizados em shopping centers. Literalmente jogo Pokémon desde sua primeira versão lançada no ocidente no portátil da Nintendo e mais de 30 anos depois podemos ver que os jogos da franquia simplesmente não evoluíram, mudando apenas graficamente e implementando ideias questionáveis apenas para vender mais bonecos.
Na reportagem investigativa do The New York Times “Why Won’t Pokémon Evolve?” (2025), que está atrás de um pay wall, foram abordados aspectos administrativos e organizacionais das empresas que afetam os games. Sei da relevância da informação e sei que interfere diretamente no que será abordado aqui, mas nossa abordagem será diferente. Afinal o consumo de games dos anos 2000 até os dias de hoje é diferente no Brasil.
Tive um Game Boy Color amarelo onde joguei Pokémon Red e Pokémon Yellow – sim, aquele remake que tinha o Pikachu com a habilidade Surf. E, em 2026, posso falar que ainda gosto dos jogos de Pokémon, mas larguei Pokémon Go depois da história dos meus dados terem sido vendidos para treinar inteligência artificial militar. Mesmo assim joguei demais Pokémon Sword e Hey You Pikachu no Nintendo Switch recentemente, minha filha é uma fã terrível do desenho animado e se realiza quando consigo – via trocas no Pokémon Home – criaturas shiny ou mitológicas. Mesmo assim, mesmo com emoção envolvido no gameplay é um fato que os games são tudo a mesma coisa no final.

Não cheguei perto de Pokémon TCG ou Pokémon Champions, os jogos simplesmente não me atraíram. Estou cansado das batalhas enfadonhas e preços abusivos de tudo que a marca produz – digital ou físico sempre me soa como superfaturado. Jogos “emulados” como Pokémon FireRed custa na loja digital oficial da Nintendo R$ 109,90 (sem tradução para o português) enquanto o game mais recente, Pokémon Legends: Z-A, custa R$ 329,90.
Não podemos negar que os preços são absurdos – muito proibitivos para muitos – mas isso não é o pior. Os games sempre tem a mesma cara e a mesma dinâmica que inevitavelmente tem se tornado enfadonha.
Cara de um, focinho de outro
No desenho animado Ash mudou de cara algumas vezes, uma atualização para novos público talvez… Nos games não conseguimos ver uma mudança – ou evolução – tão grande assim.
Nos games podemos dizer que a evolução gráfica da franquia é pífia. Se comparamos um jogo recente, como Pokémon Legends: Z-A, podemos notar diversas similaridades com Pokémon Colosseum, um game de 25 anos atrás. As diferenças de qualidade são óbvias, mas mesmo assim são extremamente limitadas, muito mais próximas uma da outra do que deveriam. Abaixo você confere o trailer dos dois jogos.
Recentemente tentei jogar a versão Radical Red, que além de incluir diversas mecânicas de jogos da franquia possui dificuldade e história próprios. Uma bela homenagem ao original que trás uma evolução de Pokémon que não podemos dizer se tratar de um game para o público infantil como é tradicional na franquia.
Mas a comunidade de fãs não olha essa degradação da franquia imóvel. Hoje é possível jogar via emulação diversas versões dos jogos clássicos de Pokémon com alterações importantes nas mecânicas e dificuldades que podem assustar os mais desavisados… Como eu.
Copia, mas faz diferente
Como a franquia parou no tempo outros games com monstros colecionáveis superaram Pokémon. Seja na história, seja na mecânica, seja no design, as similaridades entre os jogos da franquia não são por acaso, mas uma escolha da Game Freak, Nintendo e The Pokémon Company. Por que mudar um time que está vencendo por décadas?
A resposta é – ou deveria ser – simples: o público envelhece, muda e deseja novas interações, algo que leve o gameplay além de escolher um monstrinho inicial, enfrentar treinadores e encontrar um ou dois lendários pelo caminho. E já que Pokémon não faz isso, a concorrência faz.
A seguir você confere alguns dos games que evoluíram a fórmula de Pokémon e se tornaram games bem distintos.
Palworld
Palworld se monstra um jogo mais interessante para muita gente. Monstros colecionáveis, criação de bases, raids absurdas, armas de fogo, sobrevivência, história menos infantil. O jogo vendeu mais de 30 milhões de cópias e rendeu mais de USD 300 milhões. Com o lançamento da versão 1.0 os números de pessoas jogando não param de aumentar.
A Nintendo ficou tão incomodada com o lançamento do game que tentou processar a empresa por utilização de supostas mecânicas patenteadas. A Pocketpair, produtora do game, concordou em pagar uma multa do equivalente a US$ 20.000 o que podemos chamar de “troco de bala” para a empresa que já faturou tanto com a venda do game.
O jogo de “Pokémon com armas” é literalmente uma mistura de captura de monstros com um jogo de sobrevivência – você também precisa se equipar para as missões. Possui um mundo aberto dinâmico além de contar com modo multiplayer com até 4 jogadores em servidores dedicados além de raid se gráficos superiores às versões mais recentes de Pokémon. O Palworld está disponível para PC (via Steam), PS5, XBOX e macOS.
Cassete Beasts
Cassete Beasts foi um game que joguei para tentar matar essa minha vontade de jogar um game de Pokémon. Apesar do apelo similar o game possui mecânicas extremamente diferentes sem perder a questão da coleção e evolução dos monstros… Confesso que o jogo não me agradou, mas não posso dizer que o game é ruim, só não é do meu gosto.
Seu sistema de fusão de criaturas durante a batalha é um grande diferencial que amplia demais as possibilidades nas batalhas. Também possuí modo cooperativos além de possuir gráficos retrô em pixel art belíssimos – que pode dar um ar infantil para o game, mas não se engane, ele é desafiador. Cassete Beasts está disponível para PC (Epic e Steam), XBOX, Nintendo Switch, iOS e Android.
Temtem
Temtem pode não agradar todo mundo por ser praticamente um MMO competitivo e tem batalhas bem mais complexas do que vemos em Pokémon. Apesar da progressão cooperativa o game é focado em uma cena competitiva bastante acirrada em combates duplos (2v2) em partidas rankeadas.
Aparentemente a base de jogadores diminuiu muito no início de 2026, o que pode assustar novos jogadores, mas a produtora do game já prometer uma “renovação” com Temtem: Pioneers. A continuação (?) promete trazer mais monstros e construção de bases(!). Temtem está disponível para PC (Epic e Steam), Nintendo Switch, PS5 e XBOX.
Fora do padrão
Um dos games mais inventivos e interessantes da franquia Pokémon de anos é sem dúvida Pokémon Pokopia (exclusivo para Nintendo Switch 2), me parece uma experiência agradável e totalmente inédita no universo Pokémon… Mesmo custando R$ 389,90. Mesmo assim não deixei de notar sua importância e até desenvolver teorias sobre o game, como conversamos no FAROFANDO que você pode assistir abaixo.
Só mais uma coisinha
Não sou dono da razão, não estou em posição – e nem quero – ditar os rumos que Pokémon deve ou não seguir. Porém acredito que é preciso tentar novas mecânicas, novas experiências – quem sabe ousar – afim de manter seu público e ampliá-lo.
Talvez os jogos de Pokémon pudessem ter raids contra monstros lendários com toques de batalha de Monster Hunter (mas sem a parte de matar os monstros e cozinhar eles depois). Quem sabe no mesmo game você pudesse criar um Day Care em um ambiente parecido com o que vemos em Pokémon Pokopia. Um ambiente de MMO onde você escolhe sua jornada (ou classe), podendo escolher entre ser um criador, treinador ou até um pesquisador. As possibilidades são diversas.
É certo que os monstros de bolso podem ter um futuro brilhante – e lucrativo – se quiserem.
