O dia que Terry Pratchett entrevistou Bill Gates

HOME » Página de Posts » Tecnologia » O dia que Terry Pratchett entrevistou Bill Gates
O dia que Terry Pratchet entrevistou Bill Gates - FAROFEIROS.COM.BR

Como assim Terry Pratchet entrevistou Bill Gates?

Algumas coisas ocorrem em um passado razoavelmente distante e acabam se perdendo. Assim como o dia que Terry Pratchett entrevistou Bill Gates, mas por que isso é importante? A conversa de 1995 entre um dos meus autores favoritos e Bill gates, o bilionário da Microsoft, pode ser interessante. O mundo era outro, a internet engatinhava e nem existia a preocupação de IA roubando nosso trabalho de maneira porca e destruindo o meio ambiente.

A dupla se encontrou em um ônibus da Microslop Microsoft (???) no caminho entre Londres para Birmingham, na Inglaterra. De um lado, o homem mais rico do mundo (da época) e do outro o autor de Discworld, um escritor excêntrico que enxergava o mundo através de uma lente filosófica afiada (carregada por uma gigantesca tartaruga).

O resultado foi uma das conversas mais inusitadas que vi, Terry chega a alerta o bilionário quanto ao perigo da disseminação de notícias falsas em 1995!!! Em uma era sem redes sociais e qua a internet era só um bebê.

Abaixo você acompanha a transcrição da entrevista publicada pela revista GQ (edição do Reino Unido de Julho de 1995) e foi parcialmente recuperada graças ao trabalho de Marc Burrows que tem trabalhado da biografia de Pratchett.

Lista das 10 pessoas mais ricas do mundo - Bill Gates bad - BLOG FAROFEIROS

Logo de cara, Pratchett confronta Gates com a palavra que – na época – aparecia em toda mídia em inglês: nerd. A resposta de Gates é direta, ele rejeita o rótulo, mas não por modéstia, mas por precisão. Para ele o termo carrega a ideia de alguém que não sabe se comunicar e liderar com pessoas. “Não sei como me classifico em carisma mas contratar pessoas e liderar a empresa e sentar com clientes, essas são coisas que adoro fazer“.

Pratchett oferece uma alternativa britânica, a palavra: spod , que se refere a alguém que não fala com absolutamente ninguém além do computador. Gates nunca havia ouvido a palavra – nem eu.

Em outro momento Pratchett descreve a ansiedade que via nos amigos quando o assunto é tecnologia. Gates concorda que a internet estava sendo superestimada “é uma mania, é um frenesi, é uma corrida do ouro“, mas defende que o entusiasmo exagerado ao menos fazia as pessoas prestarem atenção em algo importante.

Bill Gates já gastava milhões apostando no futuro da tecnologia e levantava questões que soariam perfeitamente atuais como privacidade, desigualdade de acesso, educação e saúde pública. Talvez, não por acaso, a Microsoft atue em todas as áreas e force o monopólio de seus produtos no mundo todo – no Brasil ele conseguiu muitas regalias graças ao governo de Michel Temer. Aliás, a situação reverbera ainda hoje com a adesão ao sistema Windows pelo governo federal.

Pratchett utilizou sua sagacidade literária apresentando um cenário hipotético – que hoje pode ser consierado profético. Nesse cenário ele fala de um instituto ~~fictício~~ para disseminar mentiras históricas, imaginando esse conteúdo circulando na internet com a mesma aparência de credibilidade que qualquer pesquisa séria.

Gates responde com sua lábia de vendedor falando que acreditava que sistemas de reputação e curadoria resolveriam o problema – isso mesmo, em 1995 um bilionário defendia agências de verificação de fatos. “Toda a maneira como você pode verificar a reputação de alguém será muito mais sofisticada na internet do que é na impressão hoje“. A resposta de Pratchett é preciosa: “Parece um momento muito bom para ser bibliotecário“. Meu querido Terry não imaginava o que estaria por vir.

Gates ainda fez algumas apostas para os 20 anos seguintes e acerta ao dizer que os videocassetes ficariam obsoletos e seriam substituídos primeiro por discos e depois por mídia digital (seria essa uma descrição do que seriam o DVD e o streaming). Fala também sobre “reconhecimento visual” como problema que seria resolvido e robôs que seriam irrelevantes na primeira década mas potencialmente transformadores em vinte anos. Pois é, errou né Google Lens?

Terry Pratchett - Discworld - Blog Farofeiros

Obviamente, em algum momento, Pratchett lançaria uma provocação perguntando por que as pessoas compravam computadores mais potentes, afinal não seria pelo hardware em si, mas para rodar o Windows com mais fluidez. O software que “puxa” o hardware e Gates concorda parcialmente e em 1995 reconheceu que o Windows chegou antes das máquinas capazes de rodá-lo bem, mas defende que a relação é de simbiose, não de dominação unilateral… Errou (talvez de propósito) de novo.

Apesar de todas as previsões acertas – e erradas – o que tornou esse encontro especial é o contraste de personalidades. Gates é o vendedor otimista, convicto de que a tecnologia é uma ferramenta que irá permitir o indivíduo a alcançar todo o potencial humano. Pratchett é o observador cético, mais interessado nas consequências do que nas promessas.

Em 1995, metade do mundo nunca havia ouvido falar de internet. Hoje, as perguntas que os dois levantaram sobre desinformação, desigualdade de acesso, automação e o ritmo alucinante da mudança tecnológica continuam sem respostas definitivas, mas as consequências podem ser vistas em qualquer rede social.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *