COP30 em Belém

Imagem com fundo bege claro e texto centralizado em tons de marrom. No topo, a pergunta "E agora?" em fonte fina. Abaixo, "COP 30" em fonte média, seguido de "BRASIL" em letras grandes e negrito escuro. Na sequência, "AMAZÔNIA" em fonte decorativa com estilo indígena/artesanal, e por último "BELÉM 2025" em letras menores. No canto inferior, a marca d'água do site www.farofeiros.com.br

Como foi a COP30 em Belém?

A maior conferência climática do mundo passou pelo Brasil, pela Amazônia, pela capital do Pará, e saiu sem escrever “combustíveis fósseis” no papel. Acredito que a COP30 em Belém poderia ter sido muito pior… Mas temos que concordar que ela poderia ter sido muito melhor também.

Sei que muito foi discutido, pouco foi acertado, mas e agora? Bem, primeiro vamos começar pelo começo.

O que foi a COP30?

Entre os dias 10 e 22 de Novembro de 2025, Belém recebeu 195 países para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. As negociações se estenderam por 17 horas seguidas na reta final e o resultado foi o chamado Pacote de Belém: 29 decisões aprovadas por consenso.

O presidente da COP30, André Corrêa do Lago, declarou que o momento não deveria ser lembrado como o fim de uma conferência, mas como o início de uma década de mudanças. Bonito discurso. Agora vamos ao que de fato aconteceu.

Avanços andaram junto de retrocessos e de muito dinheiro de empresários e nações. Um bom resumo do que aconteceu foi publicado em forma de vídeo pelo canal Nunca Vi 1 Cientista, que você pode conferir abaixo. Após o vídeo aprofundamos os apontamentos importantes do evento.

O que avançou?

O Pacote de Belém inclui compromissos em transição energética, adaptação climática, tecnologia e gênero, trazendo a participação e liderança de mulheres. Sobretudo de comunidades historicamente excluídas das negociações climáticas como apontado pela Agência Brasil.

Vale lembrar que transição energética se refere ao abandono gradual de combustíveis fósseis como em favor de fontes limpas, como solar e eólica. Enquanto isso o termo adaptação climática é a parte mais prática e urgente. Ela pretende preparar cidades, sistemas de saúde e populações para lidar com os impactos que já estão acontecendo, como enchentes, secas e ondas de calor.

Os países se comprometeram a triplicar o financiamento à adaptação climática até 2035, com ênfase na necessidade de países desenvolvidos aumentarem o repasse para países em desenvolvimento. Em valores práticos isso pode chegar a US$ 120 bilhões por ano, sendo que o dinheiro deve vir principalmente de recursos públicos e que países vulneráveis precisam de acesso simplificado.

Outro avanço importante foi na área social, pela primeira vez em uma COP, afrodescendentes foram mencionados nos documentos da conferência. Por 30 anos, os documentos oficiais reconheceram povos indígenas como atores relevantes na proteção de florestas e territórios. Comunidades quilombolas, populações negras urbanas em zonas de risco, agricultores afrodescendentes no Sul Global. Não por acaso se trata de grupos que estão entre os mais atingidos pela crise climática e nunca haviam sido nomeados explicitamente. E isso tem consequência prática: o que não está no documento não tem acesso ao financiamento, não entra nos planos nacionais e não recebe mecanismos de proteção específicos.

Um Plano de Ação de Gênero ampliou o financiamento sensível ao gênero e promoveu a liderança de mulheres indígenas, afrodescendentes e rurais. Isso é o reconhecimento de quem sempre esteve na linha de frente da crise climática sem jamais ser convidado às negociações.

O Brasil também lançou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, um mecanismo inédito que remunera países que mantêm suas florestas tropicais em pé, tratando-as como fonte de desenvolvimento econômico e social, não apenas como reserva ecológica. Depois da COP30, o presidente Lula ainda criou o Parque Nacional do Albardão, na costa do Rio Grande do Sul.

Um dos movimentos mais relevantes e menos comentados da COP30 aconteceu já no segundo dia do evento. Um grupo de países assinou uma declaração sobre integridade da informação climática afim de combater a desinformação. Entre os signatários estão Brasil, Chile, Dinamarca, França, Marrocos, Espanha, Suécia, Reino Unido, Uruguai, Bélgica, Canadá, Finlândia e Alemanha.

A indústria de combustíveis fósseis gasta cerca de dez vezes mais em lobby do que os setores ambientais e de energia renovável combinados. Pesquisas recentes mostram que as campanhas de desinformação climática não negam mais abertamente a crise. O discurso migrou da negação para o descrédito das soluções, questionando políticas de transição energética ou minimizando impactos ambientais. Uma forma mais sutil de manipulação digital, onde a dúvida vira instrumento político. E é exatamente esse tipo de conteúdo que os algoritmos das redes sociais amplificam gratuitamente, todos os dias, sob os mais diversos temas.

Fotografia em close de uma tela de celular exibindo o logotipo oficial da COP 30. O texto em tons de marrom e preto traz, em ordem: "COP 30", "BRASIL" em negrito, "AMAZÔNIA" em fonte decorativa com estilo indígena/artesanal, e "BELÉM 2025". A imagem está levemente inclinada, com fundo claro e a marca d'água do site www.farofeiros.com.br na parte inferior

O que ficou de fora

A questão mais crítica do evento era a criação de um roteiro global para o abandono dos combustíveis fósseis, um calendário vinculante para reduzir o uso de petróleo, carvão e gás da matriz energética mundial. Isso não entrou no texto final.

A proposta brasileira de apresentar esse mapa do caminho para um mundo sem combustíveis fósseis foi barrada pelos países produtores de petróleo, com o apoio de nações africanas.

A declaração principal da conferência, chamada de Decisão Mutirão, não menciona os combustíveis fósseis em nenhum momento, nem mesmo para reafirmar o compromisso acordado dois anos antes de que era necessário “transitar para longe” dessas fontes poluentes.

A pesquisadora Sabrina Fernandes apontou que o conselho científico já havia avisado que o mapa prometido pela presidência da COP30 não passava de uma provocação, e que os delegados pareciam não saber o que significava de fato um roteiro para o fim dos combustíveis fósseis.

Por outro lado, enquanto a conferência debatia a crise, o Intercept Brasil revelou que o agronegócio conseguiu R$ 2,5 bilhões do Fundo Clima para financiar empresas com infrações ambientais. O BNDES não viu problema nenhum nisso. Durante a COP30 o agronegócio promoveu ativamente a agricultura regenerativa e os mercados de carbono como soluções para uma crise que o próprio agronegócio aprofunda.

A Cúpula dos Povos

Tem gente que olha para os protestos em Belém e enxerga fracasso, mas a coisa não é bem assim.

A Cúpula dos Povos reuniu 25 mil pessoas e mais de mil organizações do mundo inteiro em cinco dias de plenárias na UFPA. Cerca de 3 mil representantes indígenas formaram uma grande aldeia na cidade. A Marcha Global pelo Clima levou 70 mil pessoas às ruas sob o lema “A resposta somos nós!“.

Esses números não são decoração, esta é a única forma de pressão que historicamente move negociadores. O sucesso da COP30 não estava na Zona Azul dos diplomatas – estava na Cúpula dos Povos e nas ruas.

Os Constrangimentos

Não dá para deixar de mencionar a fala do primeiro-ministro alemão Friedrich Merz. A jornalistas disse que todos ficaram felizes em ter voltado para a Alemanha, “principalmente por sair daquele lugar“, referindo-se a Belém. Obviamente o Presidente Lula rebateu a fala do chanceler alemão, com classe e jeitinho brasileiro.

É o tipo de declaração que resume muito bem como o Norte Global enxerga o Sul: como sede temporária de um problema que “eles” precisam resolver, mas do qual preferem se distanciar geograficamente assim que possível. A Amazônia pode salvar o planeta, mas claramente não é lugar para certos europeus passarem mais de duas semanas trabalhando.

Houve um momento também que o representante da Noruega afirmou que o Acordo de Paris estaria funcionando. E isso nem foi piada, principalmente lembrando em em 2026 os EUA deixaram oficialmente o tratado.

A COP30 também marcou a presença de líderes evangélicos nas redes sociais que ficaram “chateados” com uma escultura de artista chinesa do “Espírito Guardião Dragão-Onça” feito para o evento. Alguma coisa os aborreceu e, enquanto tenho minhas dúvidas quanto ao real motivo, tenho certeza que não é nada que realmente fosse pertinente a COP30.

Então foi bom e ruim?

A COP30 deixa um balanço marcado por contrastes: houve avanços históricos mas o resultado final ficou longe da urgência necessária para enfrentar a crise climática, sobretudo na eliminação dos fósseis, no combate ao desmatamento e no financiamento climático.

Entender a COP30 além das manchetes é preciso e perfis críticos que, acompanhe o trabalho do Técnico Científico e Mestre em Ecologia Yago Santos no Bluesky — uma das vozes mais honestas sobre o que realmente aconteceu em Belém.

Imagem do logotipo da COP 30 sobre fundo verde escuro com padrão geométrico sutil de linhas e setas. O texto centralizado em branco exibe: "COP 30", "BRASIL" em negrito, "AMAZÔNIA" em fonte decorativa, e "BELÉM 2025". No canto superior direito, o logotipo do Farofeiros. Na parte inferior, a marca d'água do site www.farofeiros.com.br

E a sociedade civil?

Enquanto diplomatas negociavam vírgulas nos textos oficiais vimos organizações da sociedade civil entregarem à presidência da COP30 uma proposta concreta: um roteiro com três metas para deter e reverter o desmatamento até 2030. O documento, produzido pelo coletivo Puxirum do Bem Viver, do técnico científico Yago Santos, parte de uma premissa que parece óbvia mas raramente entra nos acordos formais: as florestas não existem sozinhas.

A proposta começa do ponto onde a maioria das negociações climáticas falha: a governança fragmentada. Cada tratado internacional cuida do seu pedaço como se o planeta fosse uma planilha com abas separadas. O documento pede que os países alinhem os grandes acordos ambientais já existentes em vez de criar novos compromissos que exigem novas rodadas de negociação.

A segunda meta vai direto em um problema que raramente aparece nas manchetes: o risco de fazer reflorestamento errado. Plantar árvores parece sempre uma boa ideia, mas plantar as espécies erradas, no lugar errado, ou substituir ecossistemas nativos por monoculturas de eucalipto ou pinus, gera o que o documento chama de maladaptação – quando a solução climática causa novos danos ambientais.

A proposta exige que qualquer restauração florestal priorize espécies nativas e ecologicamente adequadas ao contexto local. Isso é obtido, obviamente, com participação das comunidades que vivem nesses territórios.

A terceira meta deveria estar presente em qualquer debate sobre a Amazônia, mas quase nunca está: a água. Não existe proteção florestal real sem proteção dos rios, lagos, áreas úmidas e zonas costeiras que sustentam essas florestas. Perder um rio é perder o regime de chuvas que mantém a floresta viva, algo que o Brasil já começa a sentir com os ciclos de seca cada vez mais severos no Centro-Oeste e no próprio Pará.

O ponto central de tudo isso é político, não apenas técnico. A proposta deixa claro que povos indígenas, quilombolas, afrodescendentes, mulheres e juventudes precisam estar dentro dos processos de decisão, não como convidados simbólicos, mas como atores com voz real nas políticas que afetam diretamente seus territórios e, consequentemente, suas vidas.

É exatamente o tipo de proposta que não vira manchete, mas que define se os acordos da COP viram política pública ou ficam bonitos no papel. A questão agora é se a presidência brasileira – que permanece à frente da COP até novembro de 2026 – vai incorporar essas metas nas negociações que ainda estão por vir.

Juliana Pucca contribuiu com este artigo.

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