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Cem Anos de Solidão

Rodrigo Castro
editor · farofeiros

Assisti a série inspirada em Cem Anos de Solidão e tenho muito o que falar.

Gosto muito de estudar e, em uma época menos complicada, resolvi comprar a versão estadunidense de Cem Anos de Solidão, romance de Gabriel Garcia Márquez, para treinar meu inglês. Sem sombra de dúvidas foi uma leitura complicada, enquanto tentava entender a intrincada história ainda precisava romper a barreira linguística… Demorei mais do que deveria para concluir o livro e hoje gostaria de ter escolhido comprar a versão em espanhol, a língua original do autor, para treinar a língua também.

A obra normalmente não é considerada uma leitura fácil, com a barreira linguística simplesmente piorei tudo… ou talvez não. Alguns pontos da história, principalmente aqueles agonizantes, ficaram marcados na minha memória – enquanto outros simplesmente esqueci.

E isso me ajudou a gostar mais da série. A visão dos diretores me surpreendeu muitas vezes, mas por se tratar de uma ficção – quase – científica localizada na América Latina é muito fácil trazer o contexto visual para a nossa realidade. A série expandiu minha visão da obra – para o bem, ou para o mal.

Neste texto sou abrangente e vago ao mesmo tempo, mais do que um review ou análise da série – ou da obra – trago aqui um relato que tenta ordenar sentimentos extremamente diversos e conflitantes. Odeio e amo a série de Cem Anos de Solidão ao mesmo tempo mas chegar ao seu fim é, definitivamente, o que menos gostei: mesmo sabendo que a história tem um ponto final, como no livro, é impossível não querer mais.

Mas sim, acaba. Como toda estirpe condenada a cem anos de solidão.

A série tem duas temporadas atualmente na Netflix e demorou mais tempo que deveria para ser concluída. A segunda temporada só foi lançada recentemente e abaixo você confere todas as minhas impressões.

Ficção quase real

Foto da série Cem Anos de Solidão mostrando Úrsula sentada à mesa com um olhar firme mas terno

Estava animado para acompanhar Cem Anos de Solidão no streaming, mas a divulgação (ou a falta dela) simplesmente não chegou até mim. Me senti na obrigação de recuperar o tempo perdido e corri o máximo que pude para terminar a série o mais rápido possível. A classificação indicativa para maiores de 16 anos não é por acaso, violência, conteúdo sexual, nudez e outros conteúdos impactantes são frequentes, quase permanentes. Como a vida real.

Logo de início é possível ver traços diferentes do que estamos acostumados, para a minha alegria a série é totalmente gravada na Colombia e com elenco totalmente local – como Gabriel Garcia queria. Durante toda a história nas duas temporadas, a arquitetura, o jeito de falar, os rostos, são próximos do que ainda podemos ver no dia a dia do brasileiro. A escolha do elenco todo me trouxe algo familiar à estética da série inteira, tudo aquilo poderia ter acontecido na minha ou na sua cidade.

Para mim, este ponto em mais uma série não americana, é o que faz toda diferença. Se fossem atores brancos, estadunidenses, o impacto não seria o mesmo, mas não é só isso, a grande maioria dos atores da série são desconhecidos para mim, mas a qualidade das atuações assusta. Muitos deles encarnam seus personagens com tamanha perfeição que você sente saudade da atuação do mesmo personagem… Como o tempo passa os personagens envelhecem, assim é comum dois ou três atores interpretarem o mesmo personagem.

A história da família Buendía

Cem Anos de Solidão conta a história da família Buendía, herdeiros nascem, crescem, morrem, cometem crimes, sofrem assassinatos, são alvos de crimes. A quantidade de dramas, brigas, tramas, tragédias e muita tristeza dos descendentes de Úrsula e José Arcadio se confundem com a história do que viria se tornar a cidade de Macondo na Colômbia.

Guerras, terremotos, secas, chuvas que duram anos e até doença do sono são apenas alegorias na história dessas pessoas que tentam viver da melhor maneira que podem… Mesmo que isso os leve à mais tristeza.

A transformação de Aureliano Buendía no Coronel que nunca se recuperou do falecimento da sua amada Remedios. Os delírios de Arcadio, a sabedoria e cuidado de Úrsula, a briga entre Rebeca e Amaranta… Melquíades viu tudo em detalhes, escreveu tudo em latim dentro da casa da família Buendía enquanto vislumbrava seu próprio fim.

Mas a política da Colômbia também faz parte da história da família que vê o poder se alternar entre liberais e conservadores derramando seu sangue pelas ruas de Macondo através dos anos. Massacres, injustiças e violência se misturam à histórias de amor, traição e até uma homenagem à 17 Aurelianos, filhos do Coronel.

O destino final

Foto da série Cem Anos de Solidão mostrando a árovre onde Aureliano Buendia estava amarrado sem ele no local com um visual mais desolado

Mesmo lembrando de detalhes de momentos do início e do final da saga da família Buendía não pude deixar de me sentir desolado. Um clima bucólico me dominou, tive que fazer algumas pesquisas para ter certeza que não tinha entendido errado, nem que algo do livro tenha sido modificado. A surpresa desses sentimentos contraditórios ao final dessa jornada – que conhecia e sabia como acabava – é a magia que uma obra bem adaptada pode causar.

Peço perdão pelo que vou afirma a seguir, mas faz parte do que senti assistindo a série genuinamente. Se tirarmos a magia absurda e os frequentes casos de incesto, posso afirmar que algumas histórias ali poderiam ser de um vizinho seu, ou até de um parente do interior. E talvez por a história da família Buendía tenha se tornado um drama maior para mim depois da série do que quando li o livro.

A cena final mostra tanta simbologias, detalhes e cuidado que cheguei a sentir uma tristeza inesperada. Como essa família tão próxima de mim pode acabar dessa maneira? Como essas vidas sofridas poderiam terminar assim, sem um pouco de justiça em seus momentos finais.

E assim me peguei pensando na vida real e quantas vidas acabam sem um pouco de justiça. Com o primeiro Buendía preso à uma árvore com sua loucura, olhando para seu último descendente, um bebê morto, com rabo de porco, sendo devorado por formigas.

Cem Anos de Solidão se transformou para mim graças à série. Do que chamei de ficção quase científica no início agora, com tristeza, posso ver que o contexto real é muito maior do que vislumbrei quando li a obra anos atrás. A barreira linguística que tive na minha experiência pessoal com o livro não trouxe a mesma verossimilhança que a série foi capaz de fazer.

Obrigado por isso Gabriel Garcia.

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