A História Profunda na direita contemporânea por Pedro Octávio - FAROFEIROS.COM.BR
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A História Profunda na direita contemporânea

A História Profunda na direita contemporânea: tradicionalismo e conspiracionismo no movimento vaporwave,

Trabalho de conclusão de curso apresentado à Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, como requisito parcial para a obtenção do título de Licenciatura em História.

NOTA DO EDITOR: a reprodução desta peça, assim como a utilização por robôs generativos só é autorizada mediante autorização do autor. Para maiores detalhes e aprofundamento das referências Pedro Octávio também deve ser consultado. Trabalho datado em Novembro de 2022. Obra protegida pela legislação brasileira.

Dedico este trabalho à memória de Helena Dalva. Amada avó que inspirou minha vida assim como no passado seu nome inspirou uma das maiores histórias da Antiguidade. Nos reencontraremos na Eternidade.

RESUMO

BRANCO, Pedro Octávio. Recepções da História Profunda na direita alternativa contemporânea: tradicionalismo e conspiracionismo no movimento vaporwave. 2022. 60f. Monografia – Faculdade de Formação de Professores, Universidade do Estado do Rio de
Janeiro, Rio de Janeiro, 2022.

Neste trabalho são observadas as particularidades de um movimento da internet, proveniente das novas direitas no Brasil, chamado de vaporwave. Por meio das mídias sociais, a internet proporcionou voz ao extremismo, permitindo chegar à presidência da república. Ideologias anticientíficas e conspiracionistas como o olavismo, até então restritas a um nicho específico
de público, obtiveram posição de destaque na política nacional e um alcance, até então, inimaginável na mídia e nas redes. As mídias sociais tornaram-se um campo de batalha de uma “guerra cultural”, cujos soldados eram anônimos prontos para assediar outros usuários em nome de uma nova cruzada do “bem contra o mal”. A partir da Análise de Redes Sociais (ARS), foram
selecionados os perfis do movimento vaporwave mais influentes na rede social Twitter, sendo possível observar os integrantes, delimitar suas características e conhecer suas particularidades. Entre a presença midiática e política, o movimento não somente importou a estética da alt-right estadunidense, como também os valores de outra ideologia: o tradicionalismo. Potencializados
pela internet, o apego à tradição cristã, somado à proliferação de teorias da conspiração, gerou uma recepção do passado peculiar através de uma origem mítica da humanidade. Negando a historiografia e, até mesmo, evidências científicas, o passado é usado como legitimador da ideia de uma grande conspiração global que envolve anjos caídos, gigantes e sociedades secretas que
visam controlar a sociedade. Em vista disso, os historiadores não podem negligenciar atenção ao que está sendo produzido e disseminado nas redes sociais, pois é espaço próspero para todo tipo de pensamento, não havendo limites entre o que é absurdo e o que é real.

Palavras-chave: Bolsonarismo. Mídias Sociais. Novas direitas. Olavismo. Recepções do Passado. Representações do Passado. Revisionismo. Teoria da Conspiração. Tradicionalismo. Twitter. Usos do Passado. Vaporwave.

INTRODUÇÃO

O contexto histórico vivido no cenário político e social do Brasil no mandato do presidente da República Jair Messias Bolsonaro (2019-Atual) é de ascensão de vertentes da direita em múltiplos setores da sociedade (CHALOUB et al., 2018). O crescimento da direita, em especial de uma direita radical, trouxe consigo pautas de costumes, planos econômicos neoliberais e manifestações ideológicas extremistas. Sendo assim, a nova direita brasileira surge com um caráter “anticientificista”, munido de teorias de conspiração e revisionismo acadêmico, com impactos em diversas áreas, como o ambientalismo, a saúde ou mesmo a História (foco desta monografia) incorporadas num modelo de “Guerra Cultural”.

O doutor João Cezar Castro Rocha, em entrevista ao Ciro Barros pela Agência Pública sobre o seu livro “Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas do Brasil” (2021), relata como essa guerra cultural foi empregada no Brasil pela militância bolsonarista.

Há elementos dessa guerra cultural bolsonarista que são elementos transnacionais, que
você vai encontrar na chamada alt-right americana, vai encontrar no Movement, do
Steve Bannon; e há uma série de técnicas, sobretudo aquelas associadas à utilização
muito hábil das redes sociais, que não são especificamente bolsonaristas ou
particularmente brasileiras (BARROS; ROCHA, 2020).

Essa conexão transnacional da alt-right americana com a nova direita brasileira induziu a um inédito uso ativo, amplo e recorrente das redes sociais como plataformas de comunicação governamental oficial com a militância, embates políticos e disseminações de
ideias. Os apoiadores do governo Bolsonaro, os bolsonaristas, são agentes formadores de opinião que se utilizam das mídias sociais para a construção do pensamento e engajamento de sua militância. João Cezar Castro Rocha descreve a mentalidade dos grupos bolsonaristas é alimentada por um tripé fundamental constituído pelo “discurso revanchista e revisionista sobre o golpe de 1964; a Doutrina de Segurança Nacional, que traz a ideia do inimigo interno que deve ser eliminado; e a popularização do que ele chama de retórica do ódio, promovida pelo escritor Olavo de Carvalho” (BARROS; ROCHA, 2020). Essa lógica foi gradualmente
implementada ao longo do Governo Dilma (2012-2016), conforme a elucidação de Camila Rocha de que o êxito da ascensão das novas direitas se deu, parcialmente, pelo uso das mídias sociais como ferramenta de comunicação, ainda antes da eleição de Jair Bolsonaro:

Contudo, ainda que a posse de recursos financeiros e organizacionais de fato ajude a
explicar parcialmente o êxito de movimentos e mobilizações sociais, diversos outros
fatores podem determinar seu sucesso ou fracasso, como a criação de fortes
identidades coletivas, dinâmicas emocionais que surgem a partir de interações e
conflitos entre grupos políticos, mudanças na estrutura de oportunidades políticas que
criaram momentos mais propícios para a ação de determinados grupos e, nos últimos
anos, a habilidade no uso (e a própria lógica) das mídias sociais, fatores que considero
ter sido cruciais para o boom das novas direitas no Brasil em meio ao ciclo de protestos
pró-impeachment de Dilma Roussef (2012-2016) (ROCHA, 2018, p. 48).

O boom da nova direita se consolidou pelo uso das redes sociais durante o período do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, mas os grupos organizados já ensaiavam seu crescimento e organização antes dos movimentos pelo impedimento ocorrerem:

As novas direitas começaram a se organizar bem antes da reeleição de Dilma (…).
Naquela época, surgiram na internet fóruns de discussão, blogs, sites e comunidades
(principalmente na extinta rede social Orkut e, posteriormente, no Facebook) em que
se discutiam temas relacionados ao livre mercado, à defesa de valores cristãos e à
conjuntura política nacional e internacional (ROCHA, 2018, p 48).

Mídias sociais como Facebook, Instagram, Telegram, TikTok, Twitter e o WhatsApp se tornaram os principais veículos de propagação de ideias e informação. A democratização da utilização desses meios de comunicação também justifica o aumento do uso de redes sociais por parte da população do país que “poderia ser visto como um esforço que esses brasileiros fizeram, nesse contexto de ascensão socioeconômica, para emular as camadas privilegiadas” (SPYER, 2018, p. 256).

Como as redes sociais na Internet ampliaram as possibilidades de conexões,
ampliaram também a capacidade de difusão de informações que esses grupos tinham.
(…) Nas redes sociais online, essas informações são muito mais amplificadas,
reverberadas, discutidas e repassadas. Assim, dizemos que essas redes
proporcionaram mais voz às pessoas, mais construção de valores e maior potencial de
espalhar informações. São, assim, essas teias de conexões que espalham informações,
dão voz às pessoas, constroem valores diferentes e dão acesso a esse tipo de valor.
Esses valores são chamados capital social (SPYER et al., 2014, p. 85).

Nesse contexto de ampliação do discurso desses grupos menores que, até então, eram restritos aos seus nichos sociais, surgem novos grupos e subgrupos com um poder de influência gigantesca na militância política nacional. Para esta pesquisa, a principal rede social monitorada para observar o comportamento das contas vaporwaves foi o Twitter, onde se concentra a principal área de atuação do subgrupo. O Twitter é uma rede social de alta adesão mundial. O fluxo das publicações possui uma natureza de atingir públicos diferentes com mais facilidade através de pensamentos mais simples difundidos em textos curtos (de, no máximo, 280 caracteres). Um tweet possui uma “instantaneidade” maior que uma postagem em outras redes, como o Instagram ou o Facebook, devido à ferramenta Trending Topics, que serve como uma espécie de “radar” para tendências de comportamento, onde é possível observar um ranking entre os assuntos mais comentados.

Para esta pesquisa, o material foi coletado a partir do catálogo e busca de contas através da lista de seguidores dos perfis mais influentes. A busca a partir destas contas maiores e suas conexões segue a metodologia de Análise de Redes Sociais (ARS), onde uma das formas de analisar o comportamento de um grupo social é pela estrutura formada por seus padrões de comportamento (GUARNIERI et al, 2014, p.97). Fernando Guarnieri, no capítulo Análise de Redes Sociais do livro digital Para Entender a Internet1, elucida que a densidade de uma rede vem do relacionamento entre múltiplos indivíduos, mas pode depender de um único ator que
assumiria a posição de “estrela” que seria centralizadora dos demais atores.

Uma rede pode ser densa, quando todos os atores se relacionam uns com os outros.
Ela pode, por outro lado, depender de um único ator, assumindo a forma de uma
“estrela”, com vários atores vinculados exclusivamente a este ator central. Alguns
atores podem possuir um número muito maior de vínculos que outros ou podem
ocupar posições de intermediação, o que lhes permite controlar o fluxo na rede. Estes
atores são considerados centrais. Uma rede também pode apresentar diferentes
padrões de relacionamento entre grupos de atores, o que indica a existência de
diferentes papéis sociais (GUARNIERI, 2014, p. 97).

APRESENTAÇÃO DOS REFERENCIAIS

A militância bolsonarista é ampla e está inserida em vários setores da sociedade como o empresariado, o meio religioso e o meio militar. Todos esses setores da sociedade estão, de alguma forma, presentes e ativos nas militâncias digitais da nova direita e impactando em manifestações nas ruas (NETO, 2016).

Entre os grupos ativos na militância digital, destaca-se um subgrupo que tomou forma com as eleições de 2018: os vaporwaves. Os vaporwaves são um grupo militante da nova direita de caráter conservador, político e religioso (tradicionalista) que atuam, primordialmente, por meio das redes sociais, em especial o Twitter — a nona rede social mais utilizada no Brasil e a quinta em favoritismo, segundo o Data Reportal — onde foi estabelecido corpo documental dessa pesquisa.

O objetivo desta pesquisa é analisar as recepções e interpretações da História Antiga através das peculiaridades do movimento vaporwave, pois sua forma de enxergar o passado resulta de uma convergência de suas características. As percepções desse subgrupo, que serão observadas neste estudo, podem parecer ter um objetivo cômico, ou de meme4, mas são frutos
de sua forma de sentir, pensar e agir no ambiente à sua volta.

Os usos do passado são constantes em nossa sociedade e muitas vezes deparamo-nos com uma visão idealizada desse mesmo passado. Douglas Bonfá nos lembra que “utilizamos de conceitos que remetem à Antiguidade para batizar objetos novos, com o intuito de lhes dar grandeza” (BONFÁ, 2013, p.13). Esse passado se constrói principalmente com uma visão ideológica do Ocidente, onde neste processo de busca do passado são mais comuns “as reivindicações do passado correspondente à Antiguidade Clássica” (BONFÁ, 2013, p.14), mais especificamente a Antiguidade grega e romana. Glaydson José da Silva reforça que “na história
ocidental, de forma mais sistemática, isso tem início com os romanos, que tomaram os gregos como fonte para a literatura e as artes, a medicina, a arquitetura, a mitologia etc” (SILVA et al, 2020, p.45).

(…) Não raro, a Antiguidade tem sido percebida a serviço de uma certa lógica
justificadora e legitimadora, onde se pode ver, ao longo do século XX, suas ligações
com questões identitárias nacionais, com regimes autoritários, com racismo, com
machismo e com práticas políticas e sociais de toda sorte; contudo, o estudo da
antiguidade clássica não precisa reforçar nem constituir-se em elemento de opressão
(SILVA et al, 2020, p. 29).

VOCABULÁRIO E CÓDIGOS DAS PRÁTICAS DAS REDES SOCIAIS

  • Alt-right: Movimento político estadunidense de direita alternativa que ascendeu politicamente em meados da década de 2010. Possui Donald Trump como principal figura política, cuja ideologia foi influenciada pelo tradicionalismo de Steve Bannon;
  • Apelido (Nickname): nome com que o usuário se apresenta na rede social. Pode tanto ser o nome real do usuário quanto do personagem ao qual quer se apresentar;
  • Bolha: é a área de alcance e influência de um perfil ou tema na internet. Esse alcance e influência é determinado pelo algoritmo da rede social, que busca promover a maior interação possível do usuário com o sítio por meio de afinidade com temas ou pessoas;
  • Bolsonarismo: nome popular dado ao fenômeno de político-ideológico de extrema direita promovido através da figura do Jair Messias Bolsonaro;
  • Bolsonarista: nome popular atribuído aos “seguidores” e militantes do presidente Jair Messias Bolsonaro. Praticante do Bolsonarismo;
  • Conta: registro no site da rede social. Normalmente é descrito com o símbolo “@” (arroba) acompanhado do apelido escolhido pelo usuário para se identificar;
  • Compartilhamento: quando um usuário decide replicar determinada postagem em um grupo ou linha do tempo.
  • Engajamento: quantidade/capacidade de interações que o indivíduo é capaz de produzir a partir de suas publicações nas redes sociais;
  • Furar a bolha: é a capacidade do indivíduo ou tema de alcançar demais usuários que não eram aptos de acessar tal assunto devido ao algoritmo de interação das mídias sociais.
  • Influenciador (Influencer): o Perfil capaz de influenciar as opiniões e atitudes de vários indivíduos. Um influenciador normalmente possuí múltiplos seguidores fiéis que dão uma base de engajamento forte, atribuindo relevância ao perfil;
  • Linha do Tempo (Timeline): o mural onde ficam localizadas as publicações, interações e compartilhamentos da rede social do usuário;
  • Mídia Social/ Redes Social: são sites/plataformas digitais que objetivam a conexão e interação entre seus usuários;
  • Olavimo: nome dado ao fenômeno de político-ideológico da nova extrema-direita promovido através da figura do Olavo de Carvalho;
  • Olavista: nome popular atribuído aos “seguidores” e militantes do Olavo de Carvalho. Praticante do Olavismo;
  • Perfil: nome dado à conta pessoal registrada em redes sociais. Área pessoal indexado ao sítio;
  • Post: publicação na rede social;
  • Postagem: ato de publicar na rede social;
  • Print: simplificação do nome da função print screen do computador, onde há o comando de uma captura de tela (ou seja, uma “foto” é tirada do momento que está sendo apresentado em tela);
  • Seguidores: são os perfis que estabelecem uma conexão fixa com um determinado usuário da rede social com objetivo de receber, de maneira mais direta, o conteúdo produzido pelo usuário através da função “Seguir”. Quanto mais seguidores possuir um usuário, maior o potencial de “engajamento” de sua “conta”;
  • Seguir: função do site da rede social que permite que o usuário estabeleça uma conexão fixa com outro usuário;
  • Stalker/ Stalking: é a perseguição ou o ato de perseguir um outro indivíduo com o objetivo de causar algum dano ou constrangimento ao alvo. Essa perseguição pode valer tanto pro mundo virtual quanto pro real;
  • Suspensão: nome dado ao banimento/exclusão de uma conta da rede social. Ocorre a partir do descumprimento dos termos de uso da plataforma digital. A suspensão pode ser de momentânea a permanente a depender da gravidade estabelecida pelas regras da rede social;
  • Tradicionalismo: a princípio, o termo “tradicionalista” está relacionado ao “conservadorismo clássico”, como uma pessoa ligada às tradições católicas e a uma espécie de nostalgia de seu passado recente. Porém, entenderemos o tradicionalismo como um
    movimento filosófico e político do início do século XX que se combina com a atual ascensão das novas direitas, gerando uma ideologia de poder radicalizada, cujas pautas podem variar entre o nacionalismo até o ódio contra imigrantes;
  • Tweet: a publicação (postagem) na rede social do Twitter;
  • Troll: é o indivíduo que possui um comportamento hostil nas redes sociais. As atitudes variam entre a violência verbal até atos criminosos como ameaças de morte;
  • Vapores: apelido dado internamente aos associados ao movimento vaporwave no Brasil;
  • Viral/Viralizar: quando a publicação na internet atinge alto alcance e interações;
  • Youtuber: produtor de conteúdo digital em vídeo para a plataforma YouTube.

O VAPORWAVE

As contas vaporwaves costumam se esconder por trás da possibilidade dada pelas redes sociais de manutenção do anonimato, com fornecimento de dados pessoais para identificação dos responsáveis pelos perfis apenas por interesse dos próprios administradores ou por ordem judicial. Como nos diz Rosana Hermann, tais perfis estão “protegidos pela possibilidade de
anonimato, garantida pelos provedores que só revelam os nomes reais dos usuários mediante longas batalhas judiciais”, pois muitos deles “usam a Internet para dar vida a seus demônios internos” (HERMANN et al, 2014, p. 202).

O anonimato é uma prática comum no microblog Twitter e pode ser motivado por autodefesa, para evitar exposição proporcionada pela rede ou mesmo para interpretação de personagens que podem, ou não, ser baseados em pessoas reais. A fim de exemplificar tal tendência desta mídia social, podemos visualizar conta no Twitter onde utilizo meu nome e rosto acompanhados, respectivamente, de um apelido e montagem. Com isso, sou tratado como uma persona ou sátira por muitos que interagem com a minha conta. Isso diminuiu a quantidade de assédio direcionado ao meu perfil conforme avancei em número de seguidores e relevância na rede. Contudo, o motivo principal do anonimato dos vaporwaves se dá pela impunidade previamente denunciada por Hermann.

As contas @Lets_Dex e @L3itadas_l03en_ estão dentre os anônimos associados ao vaporwave com maior grau de influência. Um dos fatores determinantes para definir a relevância dos dois indivíduos foi o fato de terem sido anexados ao Inquérito das Fake
News — ainda não finalizado até a publicação deste trabalho — com direito aos seus tweets serem exibidos no Jornal Nacional, em pleno horário nobre para todo o país, (JORNAL NACIONAL, 2021) e apontados como integrantes do chamado “gabinete do ódio”. Os dois perfis funcionam como as tais “estrelas centralizadoras”, que Fernando Guarnieri cita na Metodologia de Análise de Redes, porque foram capazes de “furar as bolhas” sociais no Twitter (GUARNIERI et al, 2014, p.97). Essa centralização é possível devido ao engajamento gerado pelo compartilhamento massivo de suas postagens e pela repercussão dada a partir do compartilhamento de suas mensagens por políticos e influenciadores da nova direita. Essa estratégia de uso das redes sociais foi crucial para a consolidação da força da direita online e a proliferação das suas ideias de maneira viral. Tarciso Silva, Tatiana Ramos, Helena David e Ana Carolina Vieira definiram em seu artigo Características e especificidades da Metodologia de Análise de Redes Sociais que:

A configuração em rede tem sido a melhor forma de caracterizar relações produtivas
e duradouras, no qual os objetivos são comuns e todos os atores estão implicados. A
rede pode ser compreendida como um conjunto de conexões que se fazem por meio
de nós, sempre aberta e móvel, sendo que cada ponto dela pode estabelecer uma
conexão direta com qualquer outro ponto. (…)Nesse sentido, as redes não podem ser
caracterizadas como uma totalidade fechada, dotada de contornos definidos, e sim um
todo aberto, sempre capaz de crescer a partir de seus nós, por todos os lados e todas
as direções (SILVA et al, 2021, p.2)

HISTÓRICO, CONEXÕES E PRESENÇA NO MUNDO

O engajamento do movimento vaporwave também foi usado de forma inversa: políticos e influenciadores aderiram à estética para angariar seguidores e ampliar seu alcance na rede, a exemplo dos deputados federais Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli, Helio Lopes e o assessor especial presidencial, na época, Arthur Weintraub. No período do segundo semestre de 20198, eles utilizaram suas fotos de perfil do Twitter com a estética vaporwave.

Ao pesquisar o comportamento do determinado grupo, vi um trabalho desafiador. Quanto mais eu tentava delimitar um campo de ação, mais esbarrava na heterogeneidade dos indivíduos e nas suas distinções. Muitos se identificaram com os valores e ideologias dos vaporwaves, mas não adotaram sua estética, por exemplo. Alguns indivíduos, como exemplificado em maio de 2020 pelo perfil @mor_eo, apenas reproduziam e compartilhavam as imagens em estética vaporwave pois, simplesmente, identificavam-na como um estilo artístico pertencente ao movimento bolsonarista. Outro fator importante é que o uso
estético ocasionou uma moda nas fotos de perfil de várias contas criadas, muitas das quais abandonaram a estética assim que outras tendências surgiram e o movimento diminuiu sua relevância política.

O abandono do uso do vaporwave como estética começou ainda em 2019 com a instauração do “Inquérito das Fake News” (Inquérito 4781) pelo Supremo Tribunal Federal, por qual ganhou força a narrativa da existência de um “gabinete do ódio”, onde “milícias digitais” visariam “promover ataques a adversários políticos do presidente Jair Bolsonaro” (O ESTADO DE S. PAULO, 2022). Porém, a base governista entrou em cisão abrupta com a estética quando o movimento começou a ser taxado de “traidor” por dissidirem da militância bolsonarista tradicional (lidarei mais pra frente no texto acerca dos motivos que levaram à cisão do
vaporwave com o bolsonarismo).

Para separar aqueles que somente estavam seguindo a moda do momento e focar nos que de fato influenciavam e compunham o grupo, tive a necessidade de limitar meu campo de ação e procura. Além disso, a busca de materiais teve outro fator de impacto: a suspensão das contas pela plataforma por violação dos termos da comunidade. As plataformas digitais possuem termos de uso que proíbem a repercussão de material que possa violar direitos humanos, assédio direcionado a pessoas ou grupos, propagação de discurso de ódio e outros ataques considerados violentos.

As suspensões das contas dos vaporwaves são constantes devido ao conteúdo de natureza violenta e amoral, comumente direcionadas aos opositores políticos. Esse comportamento faz com que a frequência das publicações seja interrompida nas contas de vaporwaves que foram utilizadas como fonte primária deste estudo, pois o conteúdo é excluído da plataforma. Assim, para analisar o comportamento do grupo, este estudo utiliza prints (capturas de tela) dos tweets (postagens). Caso haja restrição temporária das contas ou seu banimento (exclusão), os links apresentados das postagens originais poderão não estar acessíveis em sua totalidade, sendo as capturas de tela uma forma simples de registrar tais postagens sem depender de um acesso privilegiado dos dados do Twitter.

O vaporwave parecia ser simples de identificar à primeira vista, mas seus indivíduos e a natureza do grupo os tornam difíceis de padronizar. A primeira solução foi delimitar um número de perfis no Twitter que mais focavam no assunto proposto da monografia: os usos e representações do passado.

DEFINIÇÃO E RELEVÂNCIA DO GRUPO ESTUDADO

A estética vaporwave é “nascida de um ramo da música eletrônica, que foi apropriada pela nova direita em ascensão no mundo” (MEIRELES, 2019). Contudo, esse movimento da nova direita vai além de uma estética identificada em fotos de perfil e imagens: ele detém dogmas cristãos conservadores aplicados a posicionamento político radical e violento; podendo também ser chamado de fashwave, em um jogo de palavras com “fascist” (facho), de acordo com a reportagem “O que é vaporwave, a estética criada na música eletrônica e apropriada pela nova direita” (2019), de Maurício Meireles. Se tentarmos simplificar numa frase, seria: um
movimento de ativismo virtual de direita tradicionalista.

A relevância desse movimento no contexto político geral, em si, não é o ponto definitivo que pesquiso. A questão maior a se observar é o seu surgimento, como muitos outros semelhantes, de um impulso ideológico de agrupar pessoas de pensamentos parecidos de forma orgânica. Numa primeira impressão, este grupo não obedece, majoritariamente, diretamente a
comandos de gabinetes ou partidos — embora tenham investigações e inquéritos em processo, ainda não há conclusão definitiva (JORNAL NACIONAL, 2021) —, tanto que, atualmente, muitos se encontram dissidentes da atual gestão da nova direita. A socióloga Esther Solano, em entrevista ao jornal O Globo, entende que é uma característica dessa nova direita ter uma militância pulverizada, cujas lideranças não são muito definidas ou hierarquizadas, “ao contrário de movimentos conservadores tradicionais” (MELLO; SOLANO, 2019). Segundo Solano, esse método de ação serve bem à retórica das novas direitas sobre possuírem um movimento orgânico e espontâneo, porém, como se tratam de perfis anônimos, não há formas de saber de maneira assertiva se as contas são geridas por uma ou mais pessoas e quais os seus reais propósitos.

Seus pensamentos radicais quanto à abordagem presidencial em assuntos políticos, como se oporem à reaproximação com o bloco político popularmente conhecido como Centrão, geraram críticas diretas ao Jair Bolsonaro, rendendo-lhes a alcunha de “direita burra” por parte do próprio presidente. Após os vaporwaves e olavistas se posicionarem contra a decisão do Planalto de nomear Kássio Nunes Marques à cadeira do Supremo Tribunal Federal, houve um princípio de ruptura entre este subgrupo e o bolsonarismo, conforme suas demandas por um ministro do STF não alinhado com a política tradicional foram negadas. Segue um trecho da live presidencial em que Jair Bolsonaro cunhou o termo “direita burra” para se referir aos vaporwaves (referidos como “moleques fedelhos cheirando a fralda” por serem um grupo identificado como jovem), onde reagia aos ataques virtuais que sofreu do grupo devido à nomeação da cadeira do STF:

— Alguns tentam… Não é infiltrado da esquerda, como o pessoal diz nas mídias
sociais muitas vezes, não é petista, não. É gente da direita mesmo, essa direita burra.
É moleque fedelho, cheirando ainda a fralda — disse Bolsonaro, durante transmissão
ao vivo em redes sociais. — Eu conheço essa turma de esquerda desde o tempo que o
pai de vocês não era nascido ainda. E o pessoal agora se dá o direito de criticar com
baixaria. Uma crítica bem feita, parabéns (BOLSONARO; GULLINO, 2020).

O momento chave para o êxodo em massa dos vaporwaves da base política governista foi quando Jair Bolsonaro não cumpriu com o “eu autorizo” no dia 07 de setembro de 2021, porque esperavam — por parte desses grupos e de outros da base bolsonarista — do presidente que ele liderasse uma ruptura institucional para a destituição forçada dos ministros do Supremo Tribunal Federal caso não implementassem o Voto Impresso “desejado pelo povo” (SCOLESE,2021). O recuo da retórica golpista presidencial culminou numa desilusão generalizada por parte da militância virtual bolsonarista (LINHARES, 2021). Abaixo vemos um meme (imagem ou charge com viés crítico e/ou cômico na internet), compartilhado pelo perfil Let’s Dex, que exemplifica um pouco da dissidência atual entre o grupo e o bolsonarismo.

Podemos observar, no primeiro quadro, a representação do que para eles é a imagem do “povo” (ao menos os apoiadores originais de Jair Bolsonaro, ao observar o slogan da campanha eleitoral de 2018 “meu partido é o Brasil”). No segundo quadro há uma disputa
de cabo de guerra com o Supremo Tribunal Federal (STF). Na sequência, o “povo” recebe ajuda do Olavo de Carvalho no embate e, no quarto quadro, o “povo” se surpreende ao ver, no último quadro, a representação de quem estaria do outro lado da corda auxiliando o STF: os liberais, os comunistas, as Forças Armadas e o próprio presidente da República.

CARACTERÍSTICAS DO MOVIMENTO VAPORWAVE

  • Estética: O visual remonta ao “retrô” da década de 1980 (parcialmente abandonada pelos perfis em 2022), com cores variando entre azul, rosa e roxo que remetem ao neon. As artes possuem detalhes como se tivessem interferências de imagem como em videocassete antigo, gerando um apelo nostálgico (principalmente para aqueles que viveram na década 80) à arte, além de apresentarem elementos como raios, símbolos religiosos judaico cristãos e feixes de luz saindo dos olhos das figuras humanas (geralmente em coloração vermelha, em alusão ao red pill).

Nas artes utilizam-se muito a iconografia grega e romana na composição das imagens, “o que não é bem novidade, por ser um recurso apropriado por movimentos conservadores ao longo da história” (MEIRELES, 2019). Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, reportagem de Mauricio Meireles, a professora Giselle Beiguelman afirma que tais iconografias clássicas no imaginário conservador “correspondem à necessidade de inventar uma tradição e criar uma anterioridade que legitimaria o presente. Isso é marcante na extrema-direita desde os anos 1930” (BEIGUELMAN; MEIRELES, 2019).

  • Tradicionalismo: aplicam de valores que, para eles, norteiam a sociedade com ampla crítica à modernidade. O movimento entra em convergência ideológica com o Tradicionalismo (que será melhor aprofundado no terceiro capítulo), principalmente pela influência dos pensamentos de Olavo de Carvalho. Muitas das características e comportamentos apontados a seguir se justificam a partir dos valores tradicionalistas, mesmo que muitos não se aprofundem diretamente nos estudos ideológicos e filosóficos do movimento.
  • Religião: predominantemente cristã, dividindo-se entre católicos e protestantes. Contudo, as artes vaporwaves encontram-se em maior abundância retratando símbolos que remetem ao catolicismo, principalmente quando associados à tradição. Podemos observar um exemplo dessa preferência artística do vaporwave com a imagem que configura uma família branca trajando roupas formais (onde a mulher possui peças de roupa que cobrem até o pescoço e a cabeça), sentadas num banco de madeira comum em igrejas mais antigas com a frase “restaure o cristianismo tradicional”.

Na sequência, observamos uma arte que contém múltiplos elementos estéticos do vaporwave aplicados. O Padre Paulo Ricardo é uma figura de admiração por parte da direita pois realiza cursos sobre a tradição católica ao mesmo tempo que faz críticas sociais ao chamado “marxismo cultural”. Na arte o padre é retratado com feixes de luz saindo dos olhos e relâmpagos saindo de seu dedo que aponta para o alto, enquanto recebe a iluminação de Cristo. As cruzes e as letras possuem coloração que remete ao neon. A imagem é acompanhada pela reprodução da frase em latim presente no perfil do Twitter de Paulo Ricardo: christo nihil praeponere (a nada dar mais valor do que a Cristo).

  • Renúncia ao conhecimento acadêmico: os integrantes possuem aversão às universidades e à produção acadêmica, principalmente nas Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. O professor Erick Felinto nos lembra que as críticas à academia, principalmente as figuras dos especialistas, são compartilhadas tanto pela esquerda, quanto pela direita (FELINTO, 2020, p.16). Entretanto, os dois lados políticos divergem pela forma das críticas acadêmicas, pois as novas direitas propagam teorias da conspiração que as universidades e seus especialistas são parte de um projeto de poder comunista. Grande parte se deve à influência dos pensamentos de Olavo de Carvalho que ganharam força com o advento da internet e das mídias sociais, antes da reeleição de Dilma Rousseff.

Camila Rocha reforça que Olavo de Carvalho foi um pioneiro nesse movimento que “após a polêmica causada pela publicação de livros em que criticava intelectuais e acadêmicos de esquerda, resolveu apostar na divulgação de suas ideias pela internet” (ROCHA, 2018, p. 48). Uma boa exemplificação dessa forma de pensar é pelo seguinte meme , onde há a representação de uma pessoa, que teria uma imensa carga de leitura (representada por uma biblioteca em suas costas), possuindo um cérebro menor que uma outra que só tivesse a leitura do livro “O Mínimo que você precisa saber para não ser um Idiota” (2013) de Olavo de Carvalho. O meme condensa a ideia de que, para os vaporwaves, os ensinamentos do Olavo possuem maior valor intelectual do que as produções acadêmicas como um todo.

  • Principais pensadores: Olavo de Carvalho, autoproclamado filósofo e ideólogo, é a influência ideológica do movimento vaporwave e reconhecia-os como um movimento legítimo a serviço das suas ideias. Há também a influência do Filipe G. Martins, discípulo de Olavo e atual assessor especial para assuntos internacionais do presidente Jair Bolsonaro, apontado como um dos principais articuladores da militância digital bolsonarista (VEJA, 2022). Este por várias vezes fez aceno aos vaporwaves e os reconheceu como uma militância legítima do bolsonarismo nas redes. Inclusive, Felipe Martins possui no mural de seu perfil do Twitter uma arte em vaporwave.
  • Missão: entendem ser soldados de uma “guerra cultural” que visa defender os “valores ocidentais tradicionais”. Por tradição, subentende-se que defendem a religião cristã como sendo a única possível e a Modernidade é “má” porque se opõe à ela. Para transmitir essa mensagem, muitas artes são acompanhadas por frases como “rejeite a modernidade” e “abrace a tradição”, associando a ideia de que aceitar o mundo tal qual ele é hoje significa uma antagonização com a religiosidade. Benjamin Teitelbaum deixa claro que esta é uma característica clara do Tradicionalismo, onde o “moderno” que é rejeitado não é aquilo que é o “novo ou atualizado”, mas o sentido aplicado na ciência histórica e social, ou seja, o período que passou a vigorar na Europa a partir do século XIX. O mundo moderno seria, para os tradicionalistas, aquele que rejeita a religião em favor de uma suposta razão que levou a um mundo materialista (TEITELBAUM, 2020, p.14).

São impulsionados por teorias da conspiração de que o mundo é composto predominantemente por (sic) comunistas que querem dominá-lo por meio do “globalismo” — plano de dominação que objetiva destruir as autonomias nacionais e submetê-las a uma Nova Ordem Mundial (outra teoria conspiratória que certas elites políticas e governos, supostamente, planejam em escala global a implantação gradual de um governo mundial totalitário). Segundo o teórico da conspiração Alexandre Costa, autor do livro Introdução à Nova Ordem Mundial, esta seria um “conjunto de fatos aparentemente dispersos, que parecem direcionar o mundo não apenas a mudanças sociais, mas a uma nova civilização” (COSTA, 2015, p.15).

Alexandre Costa dedica o livro — sua “red pill” — ao contato que teve com a obra de Olavo de Carvalho. Portanto, Costa realmente acredita na existência de uma Nova Ordem Mundial; tanto que ele a identifica como “núcleo central e decisivo do momento histórico que tinha possibilitado o maior atentado terrorista de todos os tempos” (COSTA, 2015, p.18), ou seja, os atentados de 11 de setembro.

  • Grito de guerra: Deus Vult (“Deus quer”) foi importado da alt-right estadunidense e resgata supostos valores dos cavaleiros templários. Algo que condensa essa tendência política é o grito de guerra “Deus vult”, uma expressão do latim que, em português, significa “Deus quer”. Segundo Paulo Pachá, em entrevista à Agência Pública, em 2019, a expressão “vem estampando camisetas, textos, tatuagens e tweets da extrema direita mundial desde que Donald Trump resolveu se lançar candidato à presidência dos EUA, em 2016” (RUDNITZKI; OLIVEIRA; PACHÁ, 2019).

O historiador Paulo Pachá escreveu, em seu artigo “Porque a extrema direita brasileira ama a idade média europeia” no Pacific Standard, que o revisionismo reacionário apresentaria o Brasil como sendo o ápice da conquista portuguesa, sendo, assim, objeto de sua continuidade histórica.

No Brasil de Bolsonaro […] este revisionismo reacionário apresenta o Brasil como a
maior conquista de Portugal, enfatizando uma continuidade histórica que coloca os
brasileiros brancos como os verdadeiros herdeiros da Europa. Desse modo, por meio
de uma visão genética da história, a extrema direita enquadra a história brasileira como
essencialmente ligada ao próprio imaginário do passado medieval de Portugal
(PACHÁ, 2019)

Com esse movimento político, muitas contas surgiram na internet acompanhando esse boom da nova direita. Como exemplo a seguir vemos contas de perfis no microblog Twitter que assumem personagens e estéticas desses cavaleiros templários. Além disso, com a presença das novas direitas em peso nas redes sociais, também se observou uma grande produção de conteúdo como imagens e memes que enaltecem os cavaleiros templários, o caráter “cruzadístico” (eterna cruzada) e o enaltecimento da fé católica. Há vários motivos para a aproximação das novas direitas com esse movimento medievalista. Pachá destaca que “essa Idade Média aparece como um passado idealizado por esses grupos, onde você teria uma sociedade que é majoritariamente, se não exclusivamente, branca, cristã e patriarcal” (RUDNITZKI; OLIVEIRA; PACHÁ, 2019). O cavaleiro templário condensa todas essas características num único personagem idealizado, que travou uma guerra contra o paganismo com as Cruzadas, assim como os direitistas da atualidade lutam uma “guerra cultural” contra a esquerda.

Recuperar as Cruzadas é desenvolver [uma narrativa sobre] como esses três elementos
desempenharam papel fundamental durante a Idade Média. Você teria uma defesa da
religião cristã contra o islamismo, um movimento militar – e, aí, todas as
características de masculinidade, de virilidade, de força – e essa questão Oriente
versus Ocidente, que leva à construção de uma ideia de civilização ocidental
(RUDNITZKI; OLIVEIRA; PACHÁ, 2019).

  • Teoria da conspiração: Como os vaporwaves renegam o conhecimento científico e o método acadêmico em prol do conhecimento proveniente da Tradição (principalmente a judaico-cristã), então eles apelam para o conhecimento religioso como uma forma de validação de teorias conspiratórias, em múltiplas áreas, sobre um grande complô de dominação mundial por sociedades secretas. Para Erick Felinto, o “mito do complô” seria “um dos elementos centrais, senão o mais fundamental, do imaginário da nova direita” (FELINTO, 2020, p. 5). Isso faz com que sua percepção da História como um todo seja poluída pela constante necessidade de aplicar teorias conspiratórias em todas as zonas de conhecimento. Essas teorias “podem ser definidas como crenças explicativas utilizadas para compreender as ações de grupos ou organizações que se unem em um acordo secreto e tentam atingir um objetivo oculto, sendo este percebido como ilegal ou malévolo” (REZENDE et al, 2019, p.2). Isso inclui teorias conspiratórias como o Terraplanismo, que possui muitos pontos em comum com as características dos vaporwaves em sua origem, como podemos ver a seguir:

As ideias terraplanistas ganharam evidência no século XIX, por meio de Samuel
Birley Rowbatham (1816-1884) que criou a Astronomia Zetética (da palavra latina
para “cético”), em 1848, e a sociedade homônima (Universal Zetetic Society) na
Inglaterra e, posteriormente, nos Estados Unidos. Rowbatham, um fundamentalista
religioso, baseou-se em interpretações bíblicas para realizar um experimento no Canal
Bedford na Inglaterra, onde observou o mastro de um navio que, ao se afastar, segundo
ele, não sofria variações no horizonte. Anos depois, o naturalista Alfred Russel
Wallace (1823-1913) refez o experimento e apontou inconsistências e que, de fato, ele
demonstrava a esfericidade da superfície terrestre (…). Seguindo a linha
fundamentalista religiosa e fortemente ancorada em teorias da conspiração, como a
que o símbolo da Organização das Nações Unidas (ONU) era uma referência ao
“mapa da Terra plana”, a sociedade cresceu e ganhou algumas centenas de membros
(BONFIM; GARCIA, 2021, p. 5-6)

Muitas das teorias da conspiração dos vaporwaves são baseadas em interpretações bíblicas do passado para a observação do presente que, muitas vezes, também está permeado de conspirações. Estas teorias vêm como uma maneira de legitimar suas formas de observar o mundo a sua volta. Um exemplo está numa publicação de um dos perfis já suspensos de Leitadas Loen, que dissemina a mensagem que “não há solução política” para o mundo, pois ele já estaria perdido para um plano arquitetado em escala global e promovido por obras satânicas que viriam desde o tempo bíblico do dilúvio da história de Noé (Gn 6).

Uma publicação do Irmandade Vaporwave, perfil do Telegram, exemplifica bem a junção de todos esses elementos numa imagem em que um anjo derrama um cálice — em referência às “taças da ira de Deus” derramadas sobre o mundo no fim dos tempos, presente no capítulo 16 do livro de Apocalipse (Ap. 16) — sobre Brasília, com a frase “tudo isso é manipulado” seguido de um poema que disserta acerca de uma ligação entre “os agentes do estado e o anjo negro” com o anúncio da “destruição da Sodoma moderna”. Nessa imagem podemos observar a mescla de teoria conspiratória com religião e rejeição à modernidade.

Em especial o perfil Leitadas Loen é o principal disseminador de teorias da conspiração mescladas com trechos bíblicos. Ele se utiliza da mitologia judaico-cristã para gerar conexões entre o passado mítico e as teorias conspiratórias difundidas pelo movimento, a fim de enxergar o presente com a ótica do complô.

Além das teorias religiosas, as novas direitas disseminam linhas conspiratórias político-econômicas que visam sanar os problemas do sistema capitalista, jogando as falhas para uma suposta orquestração comunista das grandes empresas mundiais (“comunoglobalismo” e “metacapitalismo”). Segundo as teorias conspiratórias, as grandes empresas capitalistas visariam a dominação global e não o lucro, contrastando com as denúncias e críticas mais clássicas do campo da esquerda.

  • Violência: os integrantes possuem comportamento digital nas mídias sociais conhecido como “troll”, que se dedica a hostilizar outros perfis comuns ou dissidentes ideológicos a exemplo do ocorrido com os perfis da Bolsominions Arrependidos (@bolsoregrets) e do humorista Mauricio Meirelles (Figuras 20 e 21). Pelo anonimato e o stalking, contas como essa “são capazes de desestruturar oposições por meio do uso de hashtag spamming, trolling e outras técnicas de pressão política utilizadas pela sociedade civil, agentes de estados ou usuários mal intencionados que buscam apenas diversão” (PASQUALE, 2017, p. 17).

Diferente de um hater, que é um crítico constante e usa a internet para um posicionamento negativo, o troll possui uma abordagem visando atacar um alvo específico em nome de um suposto humor popularmente conhecida como “zoeira”.

O hater, um cidadão que é a negatividade em pessoa, usa o espaço da internet para
espalhar palavras de ódio e intolerância. Já o troll prefere a provocação: a zoeira é
fonte de prazer e divertimento pessoal. Parece até brincadeira de criança, mas é só
navegar por timelines “famosas” para enxergá-los ali, sempre presentes. Afinal, the
zoeira never ends.
A tendência é a de que os agressores na internet tenham um comportamento mais
extremo do que teriam fora dela. O anonimato é o que dá segurança a quem ataca, já
que a pessoa pode esconder a própria imagem com recursos que a web disponibiliza:
criando um perfil, usando nomes ou avatares falsos. Tanto para os haters quanto para
os trolls, os ataques ocorrem por quaisquer razões, começando pelo fato de o alvo ter
uma opinião diferente da deles, buscam oprimir e discriminar pessoas por sua aparência,

comportamentos ou posicionamentos ideológicos (COMUNICA QUE MUDA. 2016).

O anonimato permitido pela plataforma produz uma sensação de segurança e impunidade ao agressor, o que favorece uma abordagem mais agressiva sem medo de maiores consequências. “Enquanto o anonimato empodera vozes frequentemente silenciadas em outros meios, ele também protege trolls, extremistas e atores mal-intencionados que silenciam outros
discursos pela intimidação” (PASQUALE, 2017, p. 17). Rosana Hermann conceitua essa abordagem agressiva como “cyberbullying” — que poderia ser traduzido como “coerção cibernética” ou “abuso online” — cujo maior objetivo seria desestabilizar a vítima.

Alguns abrem a jaula para que as feras passeiem por alguns instantes, (…), mas outros
vão mais longe. Muito mais longe. Abandonam seus “eus” reais e virtualmente
transmutam-se em monstros grotescos e perigosos, prontos para atacar homens,
mulheres e crianças sem compaixão, critério ou benefício aparente. A coisa é feita
apenas pelo prazer perverso de infligir sofrimento ao outro (HERMANN, 2014, p.
202).

A exemplo do ocorrido com o perfil de Meirelles, esses ataques são direcionados em “horda”, ou seja, vão em grupo coordenado hostilizar um alvo marcado como inimigo com ofensas de caráter homofóbico ou misógino, por exemplo, assédio moral e usos de imagens ou memes depreciativos. A violência com frequência ultrapassa o limite da injúria, podendo chegar a crimes mais pesados como ameaças de morte ou incentivo ao suicídio. As imagens usadas por eles fazem sempre alusão às guerras, violência e destruição, havendo uma exaltação de que a força viria dos homens que travam as guerras e somente pela guerra que tempos bons são alcançados.

  • Revisionismo histórico: a percepção da História como um todo é obstruída pela constante necessidade de conspirar. Para a História mais recente a leitura segue a linha lógica da direita mais radical, havendo exaltação da Ditadura Militar de 1964 como um “movimento revolucionário legítimo” que visava a proteção da nação contra o avanço comunista.

Porém, o que tornou interessante o aprofundamento nesse determinado grupo foram suas recepções, apropriações e usos da História Antiga. A soma de sua religiosidade com conspirações e negação da ciência geraram uma distopia da História Profunda. A bibliografia para a antiguidade, para os vaporwaves, são os livros de Gênesis e Êxodo e os apócrifos bíblicos como o Livro de Enoque, entretanto, eles consomem os textos de forma acrítica. Por exemplo, veremos mais adiante um constante tema abordado que é a cópula entre os anjos caídos que gerou uma prole gigante (neflins) e maligna, a quem os conspiracionistas atribuem o
protagonismo de suas narrativas como os responsáveis pelas sociedades secretas.

Lolita Guimarães Guerra esclarece que, de fato, “a mitologia judaica atribuiu, sempre, a tais cópulas, um caráter, senão demoníaco, ao menos, maléfico” (GUERRA, 2008, p. 95), mas tal narrativa é muito presente nos livros apócrifos como o Livro de Enoque. No cânone bíblico não é possível identificar um caráter profano, ao contrário: há uma mensagem positiva no mito, pois a prole semidivina recebe, no texto bíblico, a alcunha de “os heróis do passado, homens famosos” (Gn 6, 4). Lolita Guerra em sua dissertação Entre dois mundos: ressurreição e hierogamia nas mitologias grega e judaico-cristã relata que a “hierogamia” é um ato de união entre mortais e imortais sempre remete à “hierogamia primordial entre o Céu e a Terra”, pois “tais mitos figuram
como parte de narrativas de cosmicização, de ordenação do mundo” (GUERRA, 2008, p. 95).

Tal interesse nas novas direitas pelo tem inspiração nessa necessidade de aproximação com o divino bíblico, mas ultrapassam o cânone religioso em prol da interpretação dos apócrifos, pois objetivarem atribuir esse poder divino (e maligno) aos adversários políticos ao atribuí-los à descendência dessa hierogamia. Tal caráter divino e maligno seria a principal motivação para ter se
formado as sociedades secretas que visam a dominação global, pois seu interesse estaria em obter um mundo onde restaurar-se-ia a condição onde seria novamente adorado como deuses.

Contudo, essa leitura crítica de que a sua interpretação extrapola a liturgia bíblica não está presente nos vaporwaves. O movimento é capaz de misturar religião com a história para aplicar uma nova visão sobre o mundo atual, mas sem ao menos perceber que, para isso (ironicamente), escapam as diretrizes da religião cristã tradicional. Nem ao menos tangenciam as produções acadêmicas para se amparar em bibliografias especializadas e já consolidadas sobre o tema ou entram nos debates acerca do que faz um texto ser considerado apócrifo ou cânone na religião.

USOS DO PASSADO NO VAPORWAVE

Como citado anteriormente, o vaporwave está ideologicamente alinhado com o Tradicionalismo. Originalmente o termo tradicionalista se referenciava ao “conservadorismo mais clássico”, no sentido da pessoa ligada às tradições católicas e a uma espécie de nostalgia de seu passado recente, conforme nos traz o historiador Mark Sedgewick:

Existem muitos tipos de “tradicionalistas” e muitos movimentos “tradicionalistas”.
No sentido mais amplo da palavra, um “tradicionalista” pode ser nada mais do que
um conservador, possivelmente uma pessoa nostálgica que anseia pelos costumes de
sua juventude. Um “tradicionalista” pode também ser alguém que prefere uma prática
estabelecida específica sobre algo que o substituiu, como no caso de Marcel Lefebvre,
o Arcebispo católico que rejeitou as conclusões do Segundo Concílio do Vaticano e
estabeleceu uma igreja cismática seguindo o antigo Rito tridentino. Ele e seus
seguidores são comumente descritos como “Tradicionalistas católicos”
(SEDGEWICK, 2004, p.21).

O também pesquisador da direita alternativa, Benjamim Teitelbaum, concorda que na esfera comum o tradicionalismo representa esse termo genérico de conservadorismo, cujo indivíduo está “estagnado no tempo”, ou desatualizado, e não se conforma com os “novos tempos”.

Pode soar simples e familiar: Tradicionalismo. Não é nada além. Em uma conversa
casual, nós usamos o tradicionalismo para descrever uma pessoa que prefere fazer as
coisas de um jeito conservador, que acredita que a vida costumava ser melhor e é
crítico das novas modas. O tipo de Tradicionalismo do qual estou falando pode
acidentalmente se sobrepor a isso, mas é muito mais complicado e bizarro
(TEITELBAUM, 2020, p 15).

Contudo, Teitelbaum disserta sobre o “Tradicionalismo” — com um T maiúsculo — como um novo movimento que surge além das pautas de costumes de um tradicionalismo normal. Mark Sedgewick esclarece que os tradicionalistas entendem “tradição” como uma forma de crença e prática transmitidas por um tempo imemorial, mas que o Ocidente perdeu sua difusão durante a metade do segundo milênio depois de Cristo. O pensamento tradicionalista, proveniente de figuras como o francês René Guénon (1886-1951) e o italiano Julius Evola (1898-1974), entende que a modernidade resultou na interrupção da transmissão da tradição (SEDGEWICK, 2004, p.21). Na política atual, o Tradicionalismo se combinou com uma ideologia de poder radicalizada que englobou pautas como o nacionalismo e o ódio contra imigrantes, por exemplo.

Por Tradicionalismo — com T maiúsculo — estamos nos referindo a uma escola
filosófica e espiritual oculta com seguidores ecléticos, mesmo minúsculo através das
últimas centenas de anos. Quando combinado com um nacionalismo anti-imigrantista,
no entanto, era frequentemente um sinal de um raro e profundo radicalismo ideológico
(TEITELBAUM, 2020, p.13).

Benjamim Teitelbaum admite que tratou durante muito tempo o Tradicionalismo como uma prerrogativa curiosa dos membros mais marginalizados de uma causa já marginalizada — à mercê de um punhado de intelectuais na direita radical não inclinados às gangues de rua de skinheads ou partidos políticos populistas. Mas logo ele percebeu a complexidade do movimento e entendeu que “estudar a direita radical contemporânea é estudar o mais transformativo movimento político do início do século XXI. É testemunhar história” (TEITELBAUM, 2020).

A exemplo do que foi dito, podemos perceber que a arte vaporwave se utiliza do tradicionalismo para transmitir a sua mensagem principal. Valores como “fé”, representada por um anjo de armadura ao centro, segurando uma apontando para o céu; “poder”, representada por uma mulher coroada segurando uma espada; e “família”, representada também por uma mulher coroada. As três representações estão associadas à arte sacra clássica, exaltando o passado como sendo o verdadeiro “futuro”. Os tradicionalistas interpretam a modernidade como “sem sentido”, pois esta seria baseada numa sociedade que se tornou
materialista e burocrática, ao invés de se concentrar em valores como cultura e espiritualidade (TEITELBAUM, 2020, p. 117).

Então, para os vaporwaves, o passado é idealizado e a tradição contém a verdadeira virtude da sociedade. Além disso, esse mesmo passado também contém a “verdade” sobre o mundo atual. Como citado no capítulo anterior, as teorias da conspiração regem as
interpretações dos vaporwaves sobre o Presente, então elas não deixariam também de reger as interpretações sobre o Passado, especialmente o Passado Mítico, entendido como o passado “real”.

USOS DO PASSADO E RECEPÇÕES DA ANTIGUIDADE

Dissertar anteriormente sobre o Tradicionalismo foi importante para compreendermos qual a linha ideológica que norteia as formas dos vaporwaves e as novas direitas observarem e interpretarem o passado. Embora os tradicionalistas possuam uma ideia da existência de uma “unidade primordial das grandes religiões” (FELINTO, 2020, p. 4), foi citado que, predominantemente, o movimento vaporwave é composto por cristãos — o que difere de alguns tradicionalistas originais que são muçulmanos, à exceção de Evola — e, como possuem apreço pela tradição, utilizam da Bíblia como não só objeto de fé, mas também como documento
histórico. Eles analisam o presente a partir de teorias conspiratórias, assim como interpretam o passado sob a “lente” da conspiração como forma de legitimar sua forma de observar o mundo. Para Benjamin Teitelbaum, isso não seria uma novidade. Para o tradicionalismo, o mundo moderno não somente se apresenta como antagonista da tradição, como ele age ativamente para
eliminá-la por meio de uma falácia sobre o “avanço”:

Suas teorias de inversão oferecem justificativas teológicas e escatológicas para a
rejeição a instituições que forneçam conhecimento sobre o mundo em que vivemos,
ou seja, as universidades e a mídia. O Tradicionalismo implora que percebamos como
o projeto liberal de progresso pode ter degradado nossas vidas sob o disfarce de
avanço social (TEITELBAUM, 2020, p. 117).

As diversas teorias conspiratórias de sociedades secretas que visam “dominar o mundo” são justificadas pelo passado bíblico, mais especificamente aquele datado do período do Livro de Gênesis. Os eventos que circundam a famosa história do Dilúvio de Noé são, de longe, os mais citados pelos teóricos da conspiração. Os motivos são diversos, mas uma narrativa muito difundida é que as tais sociedades secretas seriam descendentes dos personagens desse evento mítico. A exemplo do que foi dito, observamos a afirmação conspiracionista do perfil @pantokawa que “os controladores do mundo são descendentes de Ninrode”, personagem bíblico que teria erguido a Torre de Babel, uma torre tão alta que objetivava alçar os céus para permitir Ninrode rebelar-se contra Deus (Gn. 11). Tal afirmação vem acompanhada da acusação de estarem por trás do colisor de partículas Cerne, pois ele objetivaria “abrir um portal” para o céu e cumprir o objetivo de Ninrode. Como um nicho muito específico de
acadêmicos e cientistas estão familiarizados com as funções e usos de um colisor de partículas, então essa teoria torna-se palatável para o público leigo mais suscetível às conspirações.

Uma narrativa muito comum dessas teorias — e propulsora da maioria das conspirações observadas nesta pesquisa — está presente no sexto capítulo do Livro de Gênesis, cujo mito aponta que anjos começaram ter filhos com seres humanos, gerando descendentes gigantes e perversos: os nefilins (Gn. 6, 1-4). Embora essa citação seja breve —somente 4 versículos e não
mais citada — na Bíblia, ela é capaz de ocupar um local de protagonismo no imaginário dos teóricos da conspiração. Deve-se observar que um fator resultante desses eventos bíblicos foi a criação de uma sociedade humana tão perversa que fez com que Deus se arrependesse de sua criação e, assim, arquitetasse toda a destruição da vida na Terra (Gn 6, 5-7). Esse elemento é
importante de se observar, pois os conspiracionistas entendem que os descendentes de tais gigantes ainda permanecem tentando depravar a sociedade, afastando-a de Deus.

O que entendemos como o Passado também opera sob uma ordem cronológica diferente para esses grupos. Para eles, o mundo possui uma escala de milhares de anos, ao invés dos bilhões defendidos pela comunidade científica. Os físicos Alexendre Tort e Fabiana Nogarol, em seu texto acadêmico Revendo o debate sobre a idade da Terra, lembram que as primeiras cronologias baseadas nos textos bíblicos estipulavam a idade da Terra como sendo por volta de 5.500 anos (NOGAROL & TORT, 2013, p.1-2) — podendo variar num espaço de mil anos entre os teólogos estudiosos da época, mas ainda na mesma escala temporal — enquanto os estudos científicos mais recentes apontam para um valor por volta de 4,5 bilhões de anos (NOGAROL & TORT, 2013, p.7). Como os vaporwaves compreendem que a cronologia do mundo é a cronologia bíblica, então adotam a crença de que a Terra possui entre seis e doze mil anos. Naturalmente, a recepção da história humana e biológica da Terra opera numa lógica diferente da historiografia comum. Mesmo que o senso comum tenha conhecimento de que os dinossauros caminharam sobre a Terra há milhões de anos atrás, os conspiracionistas somente conseguem enxergá-los como seres contidos nesse passado recente e, claro, como também obra angelical.

De maneira geral, a historiografia das direitas alternativas está permeada com revisionismos em diversos temas. Quando o assunto é história, os vaporwaves demonstram interesse predominantemente nesse passado bíblico pré-diluviano, mas ainda assim tendem ao seu revisionismo. Jacques Le Goff reforça que essas necessidades de uma história de origem (ou fim) da humanidade não fazem parte da historiografia:

Na realidade, a história deixa de ser científica quando se trata do início e do fim da
história do mundo e da humanidade. Quanto à origem, ela tende ao mito: a idade de
ouro, as épocas míticas ou, sob aparência científica, a recente teoria do big bang.
Quanto ao final, ela cede o lugar à religião e, em particular, às religiões de salvação
que construíram um “saber dos fins últimos” – a escatologia – ou às utopias do
progresso (LE GOFF, 1990, p. 8).

O interesse no passado não é científico, mas religioso. Esse passado mitológico é conveniente para justificar um presente em que enxergam um mundo “regido por sociedades secretas”; onde surge uma “guerra cultural” baseada no “bem contra o mal”. Na imagem o indivíduo atribui aos gigantes a alcunha de “canibais pederastas”, onde o canibalismo está de acordo com o texto apócrifo (LIVRO DOS ANJOS, 2004, p. 291), mas não se encontra referências à “pederastia”. O objetivo de se atribuir alcunha de “pederastas” está para reforçar teorias conspiratórias onde as tais “sociedades secretas” formam redes de pedofilia, como uma forma de retorno ao passado degenerado. Para os tradicionalistas, esse seria um movimento natural da História, pois esta seria cíclica. Benjamin Teitelbaum esclarece que o tradicionalismo propõe uma visão “fatalista” e “pessimista” da História, onde haverá
sempre um constante contraste entre um mundo amplamente depravado seguido por um virtuoso:

Tradicionalistas seguem o hinduísmo em sua crença de que a história humana sempre
percorre um ciclo de quatro idades: da idade de ouro à de prata, à de bronze e à idade
sombria, antes de voltar à de ouro e retomar o ciclo todo de novo. A de “ouro”, é claro,
refere-se à virtude, e a “sombria”, à depravação, ou seja, Tradicionalistas propõem
uma visão da história que é, ao mesmo tempo, fatalista e pessimista. Conforme o
tempo passa, a condição humana e o universo como um todo pioram até um momento
cataclísmico, no qual a escuridão absoluta explode em ouro absoluto, e a decadência
recomeça (TEITELBAUM, 2020, p. 15).

Não é como se os tradicionalistas ignorassem o saber histórico. Ao contrário: para eles pensar a cronologia histórica como cíclica “atribui uma importância incomum à história, porque nela o passado não deve ser superado, nem se deve escapar dele; ele é também o nosso futuro” (TEITELBAUM, 2020, p. 15). A sociedade não poderia traçar o caminho virtuoso (idade do ouro) se não antes transitarem pelo caminho da degeneração (idade sombria). Poderemos observar que a arte vaporwave representa exatamente esse tempo cíclico como um ciclo vicioso.

Tradicionalistas — sobretudo os da direita radical — acreditam que cada idade
pertence a um tipo diferente de pessoas, ou a uma casta diferente. (…)
A hierarquia social do Tradicionalismo opõe, assim, abstrato e concreto, espírito e
corpo, qualidade e quantidade. Também mapeia as idades do ciclo do tempo, o que
demonstra aquilo que os Tradicionalistas consideram justo e como isso se deteriora.
A idade de ouro é a dos sacerdotes; a de prata, dos guerreiros; a de bronze, dos
comerciantes; e a sombria, dos escravos. Em cada idade, a casta predominante dita a
sua visão de cultura e de política para o restante da sociedade. Por exemplo, na idade
de ouro, o governo seria uma teocracia, com a autoridade religiosa e a arte devocional
valorizadas acima de todo o resto, enquanto as idades subsequentes testemunhariam
a ascensão do Estado militar, da plutocracia e do governo dos mais ricos. Na idade
sombria, por fim, um reinado de quantidade dá poder político às massas na forma de
democracia ou de comunismo. (TEITELBAUM, 2020, p. 15).

O presente que estamos vivendo seria a idade sombria. A modernidade é totalmente condenável para os tradicionalistas e estes acreditam que essa guerra do “bem contra o mal” tornará a sociedade grandiosa novamente. No caso específico dos vaporwaves aqui observados, a cronologia bíblica se encaixa perfeitamente com a retórica tradicionalista. A primeira Idade do Ouro seria a época de Adão e Eva, quando o ser humano era imagem e semelhança de Deus; a desobediência levou à expulsão do Paraíso, encaminhado a raça humana para a primeira Idade Sombria, quando as mulheres tiveram relações com anjos caídos levando a sociedade ao ápice de depravação que culminou no encurtamento do tempo da vida humana e o Dilúvio como
punição (Gn 6, 3-7).

ANÁLISE DO MATERIAL

Os vaporwaves focam tanto na história profunda porque sua base ideológica tradicionalista não visualiza “num futuro possível, mas num retorno aos passados; como acontecia nas sociedades arcaicas, é nos tempos de outrora que deseja instituir sua teleologia” (FELINTO, 2020, p.18). Eles se utilizam do passado e o mito de origem para desconstruir o presente. Mesmo um passado que antecede a humanidade é encaixado na visão mítica bíblica. Se por um lado não se pode negar as evidências de que dinossauros existiram por conta dos fósseis, então estes são encaixados na teoria como criações dos anjos caídos. Se não temos
evidências arqueológicas da existência de gigantes, os vaporwaves concluem que os fósseis foram “escondidos porque não bateriam com a falsa ciência moderna”. Os vapores operam sempre pela lógica de que as “agências secretas” controlam toda a informação científica para esconder a verdade das pessoas comuns e, em última instância, essas agências não seriam
nem sequer operadas pelos humanos, como diz o conspiracionista.

Frank Pasquale, doutor em direito pela Faculdade de Yale, discorre que as riquezas prometidas pelas redes sociais foram substituídas por uma sociedade de segredos (black box society) na qual trolls, bots e, até mesmo, governos internacionais autoritários produzem a distorção das informações no Twitter, Facebook, Google News, Reddit e outros sites de redes
sociais digitais (PASQUALE, 2017, p. 17). Sabendo disso, podemos analisar uma postagem de Leitadas Loen que utiliza de uma distorção da informação, através da comparação entre duas imagens, para induzir seu público da possível existência de gigantes. Aqui podemos ver o comparativo entre dois registros de uma tamareira (“date palm”), onde na primeira, à direita, temos uma fotografia que mostraria pessoas comuns perto de tamareiras, insinuando um comparativo da diferença de altura entre os homens e a palmeira. Já na segunda imagem, à esquerda, observamos um relevo neoassírio (640 a.C. – 620 a.C.) — a imagem não possui sequer fontes, nome, datação ou localização porque, de fato, não importa para eles; entretanto esta foi localizada neste trabalho devido à responsabilidade acadêmica — que retrata mulheres e uma criança prisioneiras sendo conduzidas por soldados através de bosques de tamareiras. Observa-se que há figuras humanas do tamanho aproximado ao da árvore e
figuras humanas de menor estatura.

Observar um ser humano interagindo com outro bem menor no relevo pode indicar se tratar de uma reprodução de humanos adultos e uma criança. Entretanto, a postagem de Leitadas aponta que os adultos se tratariam de “gigantes”, enquanto a criança seria um humano comum, a partir da comparação induzida pela fotografia que retrataria a atualidade. Se ele tivesse pesquisado, veria que a imagem original se trata da retratação de pessoas comuns. Além de humanos, há também animais retratados em escalas similares à realidade, o que exclui claramente a possibilidade de serem representações de gigantes. Além disso, há outro relevo, no mesmo contexto e período39 , que retrata uma circunstância parecida e observamos os mesmos elementos nas mesmas escalas, onde há uma convenção entre os especialistas do Museu Britânico dos humanos menores se tratarem de uma reprodução de crianças.

Há relevos, pinturas e frisos na iconografia antiga que representam humanos ou deuses em escala maior que os demais, como no caso da iconografia egípcia. O doutor e egiptólogo José Sales, em seu livro Poder e Iconografia no Egito Antigo (2008), disserta sobre as representações faraônicas como figuras idealizadas e próximas ao divino (SALES, 2008, p. 14 15), principalmente em cenas de triunfo militar (SALES, 2008, p. 18-21), e podemos observar como elemento comum a retratação do faraó em maior escala que pessoas comuns. Contudo, quando Leitadas se utiliza do relevo, ele não está abrindo o debate, somente se utilizando de
uma imagem, que bastaria parecer antiga, para obter legitimidade no seu argumento. A direita conspiratória não está interessada no debate científico sério e responsável, somente em transmitir algo manipulado que seja “factível”, mesmo que seja facilmente refutável.

As publicações dos teóricos da conspiração não precisam ser — e não são — baseadas em nenhuma evidência científica. Quando são baseadas em algo, muito pouco se estabelece de qualquer método ou responsabilidade com a informação, como pudemos ver anteriormente. As duas imagens poderiam ser falsas, mal contextualizadas (como foi o caso) ou, simplesmente, inexistentes que não faria diferença, pois o objetivo é simplesmente dar ignição ao debate conspiracionista que, nesse quesito, as novas direitas são extremamente bem-sucedidas. Érick Felinto reforça que o mito e o imaginário são ferramentas importantes para a formação do
pensamento das novas direitas nas redes:

O mito e o imaginário se convertem, assim, em importantes ferramentas para
compreender o panorama político da contemporaneidade. Aliando-se à esfera da
tecnociência e dos meios tecnológicos, o mito encontrou nas imagens técnicas um
ambiente propício, no qual política e irracionalidade vieram estabelecer uma estranha

aliança. O atual contexto político brasileiro parece oferecer um interessante estudo de
caso, alimentando-se, acima de tudo, das imagens geradas nos ambientes digitais.
Memes, vídeos de Youtube, tweets, mensagens de Whatsapp compõem uma espécie
de paisagem eletrônica na qual se travaram e se travam disputas políticas em torno da
captura do imaginário popular. (FELINTO, 2020, p.17-18)

Publicações como essa são constantes e muito importantes para a consolidação do imaginário conspiratório, pois “no contexto tecnocultural digital – existe uma arte da ficção que permite a forças do imaginário cristalizar-se em realidade” (FELINTO, 2020, p.18). O objetivo final das publicações, não importando o conteúdo ou a forma, é formatar uma nova realidade e “espalhar a palavra”. No Twitter o perfil Leitadas Loen se coloca como a principal figura centralizadora de quase todas as teorias observadas nesse trabalho. Embora tenha as contas derrubadas com frequência por descumprir as diretrizes da plataforma — motivo pelo qual este possui tantas arrobas (“@”) diferentes nos prints aqui destacados —, ele sempre retorna e propaga mais e mais conspirações. Seja por motivo pessoal ou político, Leitadas se coloca como responsável por trazer materiais e dar destaques em sua timeline a todos que entrem em sintonias com suas crenças; não se importando em negar até mesmo a existência de outros planetas ou galáxias.

Perfis como o do @Leitadas_Loen são comunicadores dos conteúdos conspiratórios, não sendo o produtor principal de tais teorias. As postagens funcionam como uma espécie de outdoor para que as informações possam viralizar e furarem a as bolhas
da direita. No tempo de produção desse trabalho, houveram vários tweets que direcionavam a outras contas, mídias sociais e livros com conteúdo conspiratório; nesse último item destaca-se o livro The Genesis 6 Conspiracy: How Secret Societies and the Descendants of Giants Plan to Enslave Humankind (2014)41, de Gary Wayne, que concentra muitas das conspirações citadas
e compartilhadas por vários perfis (principalmente o Leitadas). Esse fato não pode ser ignorado, tanto que dentro da figura anterior, por exemplo, pode ser analisado o print que, originalmente, gerou a discussão. Nele observamos a youtuber Débora G. Barbosa em seu vídeo “Por que mentiram sobre o formato da Terra?” e toda a discussão promoveu os tópicos nele
contidos.

Até o momento em que foi catalogado este último vídeo neste trabalho, os números de visualizações superam a marca das 160 mil reproduções e 24 mil curtidas positivas num tempo de 2 meses de publicação. Débora Barbosa, que é formada em administração, usa como argumento “esconder a existência do Deus bíblico”, “escravização total”, “promover a agenda alienígena” e “esconder os eventos cíclicos” (teoria tradicionalista) dentre os motivos para que as sociedades secretas — para ela, a maçonaria é a principal dessas sociedades — queiram ocultar que o verdadeiro formato do planeta Terra é plano. Por mais que o senso comum trate
toda essa lógica como absurda, Érick Felinto nos lembra que:

Quanto mais absurda for uma proposição, mais convincente ela parecerá. Os
elementos metafísicos, que por vezes fazem lembrar novelas de ficção científica ou
literatura fantástica, certamente tornam o caldo particularmente interessante para
indivíduos que têm a necessidade de uma explicação integrada para o mundo
(FELINTO, 2020, p.13)

Débora G. Barbosa possui 729 mil inscritos em seu canal e, desde a criação em 2017, acumula mais de 24 milhões de visualizações em seus conteúdos tão conspiratórios quanto o exemplo previamente citado. Toda a ciência é sempre confrontada como o instrumento de controle dos poderosos para calar “a verdade”, pois “na lógica do neoconservadorismo (como das seitas), é preciso reescrever a história, revisar todo o conhecimento, já que as instâncias legitimadoras de tal conhecimento são sempre suspeitas – e possivelmente manipuladas por comunistas (FELINTO, 2020, p.15)

Para as novas direitas é “fundamental erigir formas de saber com menos brechas, capazes de confortar ao mesmo que tempo que ordenam o cosmos. Não é na ciência que se vai buscar tal saber, mas preferencialmente na religião” (FELINTO, 2020, p.16). Os vaporwaves são um movimento que possibilitou que essas ideias obtivessem capilaridade. Vídeos como o da Débora demonstram como há todo um consumo deste tipo de conteúdo que avança sem freio por milhões de espectadores, sem quaisquer respaldos científicos e sem nenhum confronto da academia para contrastar com as teorias conspiratórias divulgadas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A internet é o maior veículo de informação da atualidade e cada vez mais se torna indispensável na obtenção de toda a forma de conhecimento, inclusive o histórico. As universidades, como um todo, mantiveram-se reclusas em suas zonas acadêmicas enquanto um novo modo de comunicação se tornava hegemônico em todas as sociedades. A internet é ampla, acessível e, radicalmente, democrática; onde o vácuo gerado pela academia foi ocupado por aqueles dispostos a se adaptar e proliferar conhecimento, seja ele responsável ou não (principalmente quando não).

As novas direitas ascenderam ao poder através das mídias sociais. Por meio delas Bolsonaro passou de um meme para a presidência da república; e isso não foi obra do acaso. O olavismo e o bolsonarismo encontraram nas redes um terreno fértil e sem resistências para a sua proliferação de ideias, não importando se o conteúdo era odioso ou absurdo. Essa ascensão
não foi exclusiva do Brasil, tampouco fomos pioneiros. Muito de todos os fenômenos das novas direitas brasileiras foram importados da alt-right dos Estados Unidos, e com os vaporwaves não foi diferente. O movimento é fruto desse fenômeno global proporcionado pelo alcance que a internet e as mídias sociais podem oferecer.

No meio desse turbilhão político moderno e altamente tecnológico, paradoxalmente os movimentos tradicionalistas ocuparam um espaço extremamente relevante no debate público, atingindo a juventude. O discurso sobre tradição, valores, negação da ciência e guerra contra a modernidade foi amplificado pelas mídias sociais, gerando jovens soldados virtuais dispostos a lutar uma “guerra cultural” contra a modernidade. A História está sendo reescrita e está ao alcance de uma busca no Google.

A falta de tutela e penetração do conhecimento universitário no mundo online permitiu que ideias revisionistas e conspiratórias obtivessem uma proporção inimaginável. As grandes plataformas de internet propiciaram que redes sociais como o vaporwave encontrassem eco entre intelectuais autoproclamados, retóricas infundadas e crendices travestidas de conhecimento científico.

Terra plana, sociedades secretas, anjos caídos e gigantes são tão reais quanto a internet pode permitir em um mundo onde a universidade constrói muralhas para se proteger e não para proteger a sociedade. Enquanto não houver um olhar voltado para o que está sendo propagado na internet, produções acadêmicas, estudos, pesquisas e adaptações para as novas formas de
comunicação, a História continuará sendo usada para propagar todo tipo de pensamento, não havendo limites entre o real e o surreal.

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